sábado, 11 de agosto de 2012

UM PROFESSOR SUPERLATIVO (Porto Alegre – Parte XIV)


Nossos inesquecíveis professores (5): os professores de Ciência Política – Helgio Trindade

O curriculum vitae de Helgio Trindade é dos mais expressivos. Alguns dos aspectos mais relevantes: Doutor em Ciência Política pela Université Paris 1 (Panthéon –Sorbonne), Pós-Doutorado na Fondation Nationale des Sciences Politiques, no Centre d’Études e de Recherches Internationales, na L’École des Hautes Études en Sciences Sociales e na Stanford University, Reitor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (1992-1996), Presidente da Comissão Nacional de Avaliação do Ensino Superior (2004-2006), integrante do Conselho Nacional de Educação – Câmara de Educação Superior (2006-2009), membro da Academia Brasileira de Ciências (desde 2006) e  atualmente Reitor da UNILA – Universidade Federal de Integração Latino-Americana, com sede em Foz do Iguaçu, Paraná. Em 2005 foi agraciado com a comenda da Ordem Nacional do Mérito Científico, do Ministério da Ciência e Tecnologia.

Quando foi nosso professor, Helgio vinha de uma especialização na França, realizada no Institut d’Études Politiques. A sua formação acadêmica francesa, por ele valorizada pela ênfase no rigor metodológico, de certa forma representava uma novidade, pois a Ciência Política no Brasil constitui-se basicamente a partir dos docentes formados nos Estados Unidos.

Nossa turma assistiu suas primeiras aulas. Com a atenção concentrada não no assunto, mas na peregrinação de Helgio no estrado, onde, talvez por alguma timidez inicial, ia de um lado para o outro olhando para o chão e fazendo um rangido constante provavelmente por alguma tábua meio solta onde ele pisava no seu ir-e-vir. Este registro é de cunho afetivo e serve apenas para registrar o início de uma carreira que depois se revelou brilhante.

Um parêntesis francês

Durante o nosso curso, Helgio trouxe a Porto Alegre um professor francês, Jean Ranger, que ministrou na UFRGS alguns cursos de curta duração. Fora das atividades acadêmicas, Helgio cumpria uma rotina de anfitrião, levando o professor a conhecer os principais pontos da cidade. De vez em quando eu participava como carona destes passeios. Por conta desta vivência, observei que todos os dias o professor francês vestia o mesmo casaco, um axadrezado Príncipe de Gales, se estou bem lembrado. Comentei o fato com Helgio: “ele não troca o casaco, será que não tem outro?” Helgio riu e contou: “o pior é que na França ele também usa sempre este casaco”.

A produção do livro sobre o movimento integralista

 
Helgio Trindade com as insígnias de Comendador da Ordem Nacional do Mérito Científico
 (Brasília, 2005)

Durante o período em que foi nosso professor Helgio dedicava-se à pesquisa que resultaria em sua tese de doutorado: o movimento integralista. Apresentada na Universidade de Paris, em 1971, a tese foi publicada em português: “Integralismo: o fascismo brasileiro na década de 30”, co-edição entre a Difusão Européia do Livro e a Universidade Federal do Rio Grande do Sul, São Paulo, 1974. A apresentação do livro é de Georges Lavau, que fez parte da banca examinadora. Apesar de que as opções ideológicas tenham colocado os dois em campos opostos, o livro de Helgio integrou a Coleção Corpo e Alma do Brasil, dirigida por Fernando Henrique Cardoso.

Poucos anos depois, Helgio apresentaria detalhes metodológicos e comentaria como estruturou o seu trabalho no artigo “Tentativa de Reconstituição Empírica de um Movimento Político Radical”, publicado em “A Aventura Sociológica: objetividade, paixão, improviso e método na pesquisa social”, organizado por Edson de Oliveira Nunes. Rio de Janeiro, Zahar Editores, 1978.

Nas conversas informais Helgio contava alguma coisa a respeito da pesquisa. Seu trabalho como pesquisador levou a que alguns ex-integralistas acreditassem que se tratava de alguma iniciativa para recuperar e reativar o movimento. Ele ganhou muitos mimos: publicações, faixas, bottons, etc. Por outro lado, encontrou também alguns percalços, quer dos que se recusavam terminantemente a participar da entrevista, quer dos que cuja participação na pesquisa era vetada pela esposa. Em um destes casos, conta Helgio que, já tendo marcado a entrevista, dirigiu-se na hora marcada para a casa do cidadão. Foi recebido pela esposa que o colocou porta afora, gritando que ele não iria novamente levar o seu marido para outra aventura política. Helgio retirou-se conformado, mas, antes de chegar à primeira esquina, o cidadão que seria entrevistado veio correndo atrás dele e marcou horário em um local onde não pudesse ser importunado pela esposa.

Havia uma alta carga emocional nesta tarefa de entrevistar ex-dirigentes e ex-integrantes do movimento. Cheguei a vivenciar alguns exemplos. Pouco tempo depois de ter concluído o curso de graduação, fui para Belo Horizonte, selecionado para o curso de mestrado em Ciência Política, da Universidade Federal de Minas Gerais. Neste momento Helgio já estava com seu trabalho praticamente concluído. Nada obstante, solicitou-me que realizasse algumas entrevistas de controle com ex-integrantes do movimento, a partir de uma lista de nomes que ele conseguiu. Fui atendido em todas as solicitações de entrevista, mesmo tendo, na ocasião, um biótipo desfavorável: era jovem, usava cabelo razoavelmente comprido, e possuía um carregado sotaque sulista. Pois, apesar da dificuldade de um estranho entrar na casa de uma família mineira, sempre fui bem recebido. Um caso, porém, foi marcante. Marquei dia e horário para a entrevista, que seria à noite. Na parte da manhã telefonei para confirmar e ninguém atendeu. Pelo sim pelo não compareci no horário combinado. A esposa do cidadão recebeu-me à porta e me convidou imediatamente a entrar e esperar na biblioteca. Aí ele apareceu visivelmente abatido. Perguntei se ele gostaria de manter a entrevista. Disse que sim, que gostaria de falar sobre o movimento, porque isto contribuiria para ele esquecer um pouco o seu drama pessoal: seu pai havia falecido na véspera e durante o dia ele estava ocupado encarregado das exéquias. Constrangido, aventei a possibilidade de deixar a entrevista para outra ocasião ou mesmo suspendê-la. Ele fez questão de manter o compromisso, que foi denso pela situação emocional em que fez seu depoimento. Acho que isto demonstra o fervor e a dedicação que aqueles homens ainda tinham com o movimento integralista.

O trabalho como pesquisador de campo


 Durante a parte final do curso de graduação meu sustento vinha do trabalho como pesquisador de campo, aplicando questionários de pesquisas de opinião. No período, metade final dos anos de 1960, muitas oportunidades eram oferecidas: pesquisas de interesse de planos de saúde, de fabricantes de refrigerantes, etc. Era uma ocupação ideal para estudantes, pois ganhava-se por questionário aplicado e aprovado, com horário definido pelo próprio pesquisador. Além do mais, este tipo de atividade também propiciava a oportunidade de conhecer e interagir com os mais diversos tipos de pessoas, como abordá-las e ganhar sua confiança. Outro aspecto era a possibilidade de conhecer melhor a cidade, pois qualquer amostragem contemplava os mais diversos bairros da capital. A economia estava em processo de decolagem e pipocavam estas oportunidades. Um colega, porém, desistiu da oferta quando telefonou para uma empresa e perguntou se havia limite de idade. Responderam entusiasticamente que não, que a empresa acreditava que as pessoas eram como o vinho, quanto mais velhas melhores. Ele disse que não tinha se expressado direito, queria saber se havia um limite mínimo. Nova resposta efusiva: também não, pois a empresa acreditava que as pessoas eram como as árvores, quanto mais novas melhores os frutos. Aí ele achou que era relativismo demais e desistiu.

A tarefa de pesquisador de campo exigia algum planejamento, qualquer descuido e tudo ia água abaixo. Uma vez, para ir a um determinado bairro um pouco distante, precisei ir para o centro da cidade e de lá pegar um ônibus. Fi-lo. Depois de estar rodando um certo tempo, desconfiei do entorno que via pela janela e resolvi perguntar para onde estava indo. Havia me enganado de ônibus e o destino não era o que eu precisava. Até voltar para o centro foi-se a maior parte da manhã e a perda do turno de trabalho.

Como é sabido pelo pessoal da área, a possibilidade de ser bem recebido era maior nos bairros de classe mais baixa. Nos de classe alta a própria receptividade era muito pequena e difícil (isto naqueles tempos, imagine-se hoje). Foi em um deles que tive um único percalço, o de ter sido atacado por um cachorro. Sem danos, contudo. Mas foi de uma pesquisa sobre hábitos de consumo, patrocinada pela Fundação Getúlio Vargas, que guardo as melhores lembranças. Conto duas, ambas situadas em bairros da periferia.



A pesquisa era chatíssima, indagava-se quantos quilos de arroz a família tinha comprado na semana, quantos de feijão, o preço de cada produto e o que aquilo representava no orçamento doméstico, etc. e tal. Em algumas das amostragens era aplicado um questionário mais completo, aborrecidíssimo. Enfim... Em um bairro paupérrimo, em uma residência idem, onde, com muita gentileza, me indicaram para sentar um banquinho de madeira, um dos raros móveis da casa, terminada a entrevista a dona da casa me ofereceu um café com uma merenda, uns doces variados até que muito bem apresentados. Mas, quando ela ofereceu e viu que eu estava com uma certa relutância, resolveu me tranquilizar: “moço, não se preocupe, é tudo de boa procedência, meu marido trabalha como motorista do carro de entrega de uma padaria”.

De outra feita, vou também a uma residência pouco mais do que um barraco. A moradora era uma velhinha encarquilhada. Cheguei e apresentei minha cantilena sobre a pesquisa. Aí ela me disse: “moço, não entendi nadinha do que o senhor falou, mas o senhor falou em Getúlio Vargas, ele foi um presidente muito bom para os pobres, eu gostava muito dele e por isso vou lhe atender e o senhor pode me perguntar o que quiser”.
Brasil, zil, zil.

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sábado, 28 de julho de 2012

UM GRANDE MESTRE E UM APRENDIZ DE CONSELHEIRO (Porto Alegre – Parte XIII)


Nossos inesquecíveis professores (4): os professores de Ciência Política – José Antônio Giusti Tavares

Conforme já contei, prestei muita ajuda aos professores na datilografia de textos. A situação que mais me atraía era quando chamado pelo Prof. Tavares. Isto porque o convite sempre era acompanhado de um almoço, um lanche ou um jantar, situações potencializadas pelas excepcionais qualidades culinárias de sua esposa, Élida, chamada por ele carinhosamente de “Brotinho”. Tavares me chamava para datilografar suas traduções do italiano e suas conferências. Mesmo não sendo um especialista no ramo, traduzia do italiano excepcionalmente bem. Conseguira algumas curiosidades, como long-plays com discursos de Benito Mussolini. No intervalo para descanso, após as refeições, colocava em sua vitrola discos de música clássica. O que, naqueles tempos, era uma experiência um pouco trabalhosa pela necessidade de estar trocando os discos. Certa feita, após o almoço colocou a Nona Sinfonia de Beethoven, que consistia de dois discos de vinil, quatro lados portanto. Acostumado a sestear, precisei de um esforço hercúIeo para ficar de olhos abertos e ouvidos atentos. Esta sinfonia, a mais longa delas, com 74 minutos, serviu de parâmetro para o desenvolvimento do CD, cuja dimensão (12 centímetros de diâmetro) foi escolhida para poder comportar toda a Nona Sinfonia.

Tavares deve ter sido um dos nossos professores onde as ambivalências e as perturbações do lado humano mais se sobressaíam. Na época em que foi nosso professor, antes portanto de ter deslanchado sua formação pós-graduada, vivia obcecado com a tentativa de formular uma hipótese inovadora no campo da teoria política. Costumava me perguntar: “o que achas, caríssimo?” Pobre de mim, não tinha bagagem suficiente para avaliar se a proposição era algo inovador ou não. Sempre respondia que me parecia bom. No dia seguinte, Tavares aparecia contrariado: “pensei que estava criando algo novo, depois me dei conta de que isto estava em uma passagem do livro do Carl Friedrich”. Mas ia em frente. Lembrava um personagem de Machado de Assis, o maestro Pestana (do conto “Um Homem Célebre”) que passou a vida inteira tentando criar uma música clássica que fosse inédita, mas só conseguia criar polcas, pelo menos todas de grande aceitação popular; de vez em quando achava que estava no caminho certo, até a esposa lembrar “isto é Chopin”. Assim foi até o fim da vida. Tavares teve sorte distinta. Depois que deslanchou, após a pós-graduação, nunca mais precisou compor polcas.


Tavares e eu - o mestre e o aprendiz (Caxambu - MG, 1995) 

Ainda em começo de carreira, como professor assistente de tempo parcial, Tavares precisava melhorar o orçamento com outras atividades didáticas. Lecionava História em um colégio de segundo grau. Conhecendo seu dia-a-dia, sua rotina, perguntei em que horário ele preparava aula para estas turmas. Porque era evidente que ele não tinha esta preocupação. Contou-me que ia pensando na aula enquanto dirigia. Ao chegar em classe, praticava o que chamava de “terrorismo cultural”: propunha uma questão que chocasse pelo inusitado. Depois desenvolvia o tema que já tinha esboçado.  Uma estratégia assemelhada era utilizada pelo Prof. Laudelino, de Sociologia. Velho mestre, não muito longe da aposentadoria, não se preocupava em gastar mais tempo com o preparo das aulas. Já sabia tudo. Só precisava se situar. Assim, todo começo de aula, ele andava de um lado para outro e de repente apontava para um de nós e perguntava bem devagarinho, escandindo as palavras: “De que matéria estivemos tratando na última aula?” Este estratagema funcionava. Antes da aula a gente procurava relembrar o assunto anterior para não ser pego de surpresa.  Enquanto o coitado do aluno tartamudeava sua resposta (no caso das sabichonas da classe elas deitavam e rolavam), o Prof. Laudelino colocava as engrenagens para funcionar e de imediato já sabia o que deveria desenvolver naquele dia.

Para os estudantes do segundo grau Tavares também não se preocupava muito em gastar tempo atribuindo nota. Distribuía notas meio pelo jeitão do aluno. Frequentemente ele atribuía a nota na hora de anunciar o resultado, comunicando para toda a classe. Uma ocasião pisou em falso: anunciou “fulano, nota oito”. Os outros alunos reclamaram: “professor, ele  cancelou a disciplina no mês passado”. Tavares não se deu por achado: “sei disso, apenas lembrei dele e quis lhe fazer uma homenagem”.

As tarefas que mais cansam o professor são o preparo das aulas e a avaliação dos alunos. O preparo das aulas é inescapável, não tem jeito. Mas na hora de avaliar é complicado. Complicado nas áreas de ciências humanas, com respostas discursivas; não é a mesma coisa que avaliar uma prova de matemática ou estatística. Gasta-se muito tempo se a coisa for feita de forma criteriosa, comentando respostas e dando orientações. De um modo geral, tem quem avalie de modo mais frouxo e tem quem ache prazer em dissecar toda a prova e criticar até um mau uso das vírgulas pelo aluno.

Estes registros referem-se apenas ao tempo de convívio durante o curso. Posteriormente ele obteve sua formação pós-graduada, conseguindo os títulos de Mestre em Ciência Política, pela Universidade Federal de Minas Gerais, e depois Doutor em Ciência Política. Foi Pesquisador Associado no Centre d’Études de Recherches Internationales, Fondation  Nationale des Sciences Politiques, em Paris; Guest Scholar e Visiting Fellow do Helen Kellogg Institute for International Studies, Notre Dame University, em Indiana, Estados Unidos. Prolífico escritor, é autor de inúmeros artigos científicos e dos seguintes livros: “A Estrutura do Autoritarismo Brasileiro”, “Sistemas Eleitorais nas Democracias Contemporâneas – Teoria, Instituições, Estratégia”, “Reforma Política e Retrocesso Democrático” e “Representação Política e Governo – J.F. de Assis Brasil Dialogando com os Pósteros”. Além disto, é organizador e coautor de “Totalitarismo Tardio – O Caso do PT”.

Uma foto supimpa

A partir da esquerda: Tavares, Sonia Guimarães, Anita Brumer, Arabela Oliven,
Ruben Oliven, Ilse Scherer-Warren, Tanya Barcellos, Valmiria Piccinini e eu
(Caxambu - MG, 1996)

A foto, registrada por ocasião do 20º Congresso Anual da ANPOCS – Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais, realizado em Caxambu – MG, em 1996, obedece a uma simetria perfeita: homem – três mulheres – homem – três mulheres – homem. Nela está representada boa parte da intelligentzia gaúcha nas áreas de ciências humanas e sociais: Prof. Tavares (Ciência Política), Sônia Guimarães e Anita Brumer (ambas de Sociologia), Arabela Oliven (Educação), Ruben Oliven (Antropologia), Ilse Scherer-Warren (Sociologia da Universidade Federal de Santa Catarina, mas graduada em Ciências Sociais pela UFRGS), Tanya Barcellos (da FEE – Fundação de Economia e Estatística do RGS) e Valmiria Piccinini (Administração). Compareci como representante do Ministério da Ciência e Tecnologia, um dos financiadores do evento por meio de suas agências de fomento.

Friedrich Nietzsche

Uma passagem de Friedrich Nietzsche diz que você pode não ser capaz de resolver o seu problema, mas pode ajudar a resolver o problema dos outros. Por razões insondáveis, havia quem achasse que eu tinha uma expressão serena. O próprio Tavares, brilhante intelectualmente mas internamente bastante agitado, me dizia que às vezes estava nervoso, angustiado, mas que quando via meu rosto tranquilo já começava a se acalmar. Por situações certamente parecidas é que vez por outra servi de conselheiro informal para os colegas de pensão.

Um deles, bem apresentado, desde que veio do interior apresentava uma trajetória peculiar: ele não namorava, noivava. Bom moço, estudioso, com futuro brilhante, seguramente era visto como um noivo ideal. Enfim, conseguiu se livrar daqui, dali, mas depois de dois noivados ultimamente estava se sentindo meio encalacrado. Embora sem ter concluído o curso e, portanto, não estar ainda ganhando seu próprio pão, era adorado pela família da noiva. Ele também gostava muito da menina e não tinha coragem de terminar a relação. Mas queria um pouco de sossego até sentar um pouco mais o pé na vida. Costumava me consultar para uma coisa ou outra, até que me pediu um conselho sobre como terminar aquele noivado que já estava lhe sufocando. Não sendo um expert no assunto, resolvi dar um conselho meio na brincadeira para ver se ele procuraria alguém com mais gabarito para opinar. Sugeri que ele tomasse uma bebedeira e assim aparecesse na coisa da noiva. Não precisaria ensaiar nenhum discurso, mesmo porque na hora ele não iria lembrar de nada e era melhor dizer o que lhe desse na tela. O importante é que os pais da noiva iriam ficar chocados com a cena e perceberiam que, afinal, ele não era a maravilha que estavam idealizando e que era bom saber disso antes que as coisas fossem em frente. Dito isto, me despreocupei, porque me pareceu uma idéia tão descabida que obviamente ele iria descartar. Alguns dias depois veio me procurar todo contente para agradecer e dizer que tudo tinha se passado como eu havia sugerido e que, agora, estava finalmente livre. Que coisa...

De outra feita não tive muito êxito. Outro colega de pensão me convidou para ir jantar fora às suas custas. Era o tipo do convite alegremente aceito na hora. Mas, no restaurante, percebi que o colega estava meio tenso, comendo pouco e insistindo para que eu pedisse mais bebida ainda que não estivesse me acompanhando. Percebi que sua intenção era de que eu ficasse meio alegrinho para poder me contar o que estava entalado na sua garganta. Além de normalmente não ser de beber muito, acabei travando. Numa situação daquelas não era possível beber com satisfação. O colega também travou e acabou não me contando nada. Talvez não fosse uma questão de aconselhamento. Ele estava querendo contar alguma coisa que lhe angustiava. Mas provavelmente não tinha coragem de falar com alguém que prestasse atenção e que depois não esquecesse do assunto. Aí ficou por isto mesmo. Mas, pelo resto da vida fiquei imaginando que tipo de situação constrangedora estaria preocupando o colega. Enfim, não se ganha sempre.


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sábado, 21 de julho de 2012

UM APOLOGISTA DOS FILÓSOFOS GREGOS E UMA CURIOSA PREFERÊNCIA (Porto Alegre – Parte XII)


Nossos inesquecíveis professores (3): os professores de Ciência Política – Leônidas Xausa

Nosso primeiro grande mestre de Ciência Política foi Leônidas Xausa, quem nos iniciou nos paralelos entre os ensinamentos dos filósofos gregos e os conceitos da Ciência Política contemporânea. Intelectual brilhante, fundador da disciplina de Ciência Política na UFRGS, em 1969 foi aposentado compulsoriamente por decreto do Presidente Costa e Silva. Faleceu em Porto Alegre no ano de 1998.



Melhor do que o aqui se possa relatar, é a leitura do livro “Leônidas Xausa”, organizado por Helgio Trindade e Luiz Oswaldo Leite, publicado pela Editora da UFRGS em 2004 (624 págs.) O livro está estruturado em três partes. A primeira apresenta seus escritos e pronunciamentos, com destaque para o artigo seminal “O Surgimento do Bipartidarismo no Rio Grande do Sul”, escrito em parceria com Francisco Ferraz.  A segunda parte transcreve seus artigos de análise da conjuntura nacional e internacional, escritos no período de 1985 a 1989. Finalmente a terceira parte é composta por depoimentos, testemunhos e homenagens. 



O voluntariado da datilografia

Por ter habilidades nas artes da datilografia – já contei da época em que ganhei a vida trabalhando como datilógrafo em um cartório  – , auxiliei alguns professores na produção de textos didáticos. Leônidas Xausa foi um deles.

Xausa me chamou para ir em sua casa auxiliá-lo a datilografar sua tradução de um livro. Ele ficava caminhando pela sala com o original em inglês nas mãos, traduzindo no ato, e eu datilografando o resultado. O livro era “Uma Introdução à Teoria Política”, de Carl J. Friedrich, da Universidade de Harvard. Publicado em 1970 pela Zahar Editores, do Rio de janeiro. A primeira edição norte-americana era de 1967. Tenho a vaga impressão de que o próprio Xausa havia sugerido a publicação do livro no Brasil. O fato é que a nossa publicação foi bastante próxima em relação à norte-americana. Mas, a tarefa de tradução não envolvia nenhum desafio intelectual, era cansativa e o pagamento, como normal para este tipo de atividade, pelo menos na época, muito baixo. Enfim, Xausa traduziu alguns capítulos, cansou, desistiu de prosseguir e mandou o trabalho para a editora, apresentando um pretexto qualquer para não seguir com a tradução. A Zahar foi atrás de outro tradutor que completasse a tarefa. Na edição do livro os créditos foram atribuídos aos dois: Leonidas Xausa e Luiz Corção.

Uma das passagens do livro passou a ter, anos depois, um significado especial para minha vida  profissional. Ao finalizar uma discussão sobre questões de liberdade acadêmica, Carl Friedrich fez o seguinte comentário: “Quando sou chamado de professor sou visto como um homem que ‘professa’, a palavra latina que significa confessar. Há no termo professor, derivado das universidades medievais, o reconhecimento inerente de que os homens que estão na plataforma acadêmica são pessoas que devem ser fiéis a convicções, a primeira das quais, por certo, é a dedicação à verdade”.

Ajudando os colegas

Durante o curso utilizamos muitos textos didáticos, que eram chamados de polígrafos, normalmente traduções de originais estrangeiros, dos quais eram impressas cópias para os colegas. Vários destes textos contaram com minha contribuição e a de Tanya Barcellos. Tanya, uma colega especial, era a tradutora de inglês preferida do Xausa; cabia a mim datilografar os textos, aqui e ali dando algum palpite sobre uma melhor adaptação da tradução à língua portuguesa. Com os recursos então disponíveis, stencil e mimeógrafo a álcool, consegui produzir alguns trabalhos feitos com mais de uma cor e alguns até com ilustrações (reproduções de charges, desenhos próprios, etc.).
 Tanya Barcellos, à direita, com uma colega (Caxambu, 1996)
Como qualquer tarefa, havia também um lado lúdico, ainda que às vezes involuntário. Certa ocasião, Tanya estava traduzindo um texto no qual, segundo minha interpretação, o autor colocava um destaque no último parágrafo, para deixar claro ao leitor que a argumentação estava sendo encerrada. O texto era datilografado às cegas, porque em papel stêncil, portanto sem fita. Como eu estava convicto do tal destaque e achei que este pormenor pudesse ter passado despercebido por ela, datilografei do meu jeito. Após o texto ter sido impresso é que verificamos que o último parágrafo iniciava assim: “finalmente, ao fim...”  Rimos bastante. Mas ninguém reclamou. Caso reclamassem, já tinha pronto o argumento de que se tratava de um pleonasmo de reforço.

Galinha “de colo”

Tanya Barcellos ia para as aulas dirigindo o Aero Willys preto de seu pai, que havia sido Diretor da Faculdade de Administração da UFRGS. Contava que quando criança havia tido uma “galinha de colo”, creio que no sítio da avó. Seu bichinho de estimação tinha sido uma galinha. Isto não tinha precedentes.

Pois a revista Serafina, suplemento do jornal Folha de São Paulo, em sua edição de junho de 2011, publicou reportagem informando que a criação de galinhas como hobby está em alta entre os descolados de Los Angeles, Estados Unidos. São os criadores urbanos de galinha. O site My Pet Chicken, que vende os pintinhos, vende também diversos produtos inclusive fraldas, para os donos que gostam de manter os móveis limpos. Uma das criadoras diz que as galinhas gostam de carinho: “a Beatrix (da raça orpington buff) é muito fofa, doce e muito macia. As pessoas nãos abem como uma galinha pode ser macia. E quando faço carinho, ela senta e começa a dormir”. 


Fotos que ilustram a reportagem

Pelas informações da matéria o hábito está sendo adotado por uma elite. Ora, Tanya também era elite. Como toda elite, com uma visão antenada dos modismos.


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sábado, 14 de julho de 2012

OUVIDORIA PÚBLICA: MAIS DO MESMO E UM ESTUDO DE CASO


Um apanhado geral

Acompanhei a Ouvidoria-Geral do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação desde sua criação em abril de 2008. Inicialmente apenas lotado na Ouvidoria para “cooperar na implantação e no desenvolvimento de suas atividades”, a partir de agosto de 2009 passei a ser o Ouvidor-Geral, função da qual foi recentemente afastado. Durante este período coloquei neste blog várias matérias a respeito de Ouvidorias. Para consulta eventual, estas matérias vão ter seus links reproduzidos aqui, de modo a facilitar sua localização. Além disso, serão apresentadas algumas informações sobre pessoas o que, de certa forma, constitui uma espécie de pequeno histórico. Acredito que, mesmo para quem não tenha interesse específico no assunto, vale conhecer um pouco a respeito de um serviço que poderá ter crescente importância na vida dos cidadãos. Ou não, como diria Caetano Veloso, ou como sopram os ventos sobre as ouvidorias do Poder Executivo.

Visão histórica

Os Ouvidores-Gerais do Brasil Colônia foram das primeiras autoridades portuguesas que vieram para o Brasil. Seu ofício, no entanto, era diferente do atualmente praticado.
- Os Ouvidores na História do Brasil:

Existindo há tanto tempo, era provável que a presença dos Ouvidores-Gerais tivesse algum registro em nossa produção literária ou em narrativas da época. No blog são apresentadas citações de duas fontes colhidas em meu acervo pessoal; uma refere-se a 1546 e a outra a 1764. Uma pesquisa mais extensa certamente revelaria outras indicações.
- Registros históricos sobre os ouvidores:

Uma rara história em quadrinhos tendo como tema a figura do Ouvidor. Os quadrinhos são de 1956 e retirados de uma publicação didática, esta do acervo de minha esposa.
- Uma cama para o Ouvidor:


A participação em eventos

Principalmente pela circunstância de que as ouvidorias públicas são fenômenos relativamente recentes, os encontros da área são importantes não só porque trazem novas informações como permitem o contato e a troca de experiências com outros colegas ouvidores. As indicações são de alguns dos encontros de que participei.
- Seminário Internacional de Ouvidorias (Fortaleza, julho de 2009):

- Fórum Internacional de Ouvidorias (Brasília, novembro de 2009):

- Os desafios do acesso à informação (Brasília, julho de 2011):

- Reunião de Ouvidorias Públicas (Brasília, julho de 2011)

Curiosidade: o Seminário Internacional sobre Acesso à Informação, acima mencionado, foi objeto da reportagem “CGU debate os desafios de implantar o acesso à informação aos cidadãos”, publicada na revista Gestão Pública & Desenvolvimento, julho de 2011. Entre as fotos que ilustram a matéria encontra-se uma que apareço ao lado de Miriam Nisbet, do Departamento dos Serviços de Informações dos EUA.

   
Gestão Pública & Desenvolvimento, julho 2011, p. 49


A regulamentação das Ouvidorias

Um dos principais problemas das ouvidorias públicas, mormente as do Poder Executivo, é o fato de que não estão regulamentadas. Nem mesmo a sua existência é obrigatória. Isto as deixa à mercê da boa vontade e aquiescência de dirigentes. Tenho conhecimento de pelo menos uma situação em que a ouvidoria pública foi fechada quando o titular do órgão afastou-se, para concorrer a cargo eletivo, e não quis que a existência da ouvidoria pudesse ser a porta de entrada para críticas à sua gestão. Além disto, a própria existência de função gratificada para o Ouvidor tem sido objeto de utilização para outros propósitos que não os precípuos à ouvidoria. Tem-se conhecimento de vários casos na Esplanada dos Ministérios. Felizmente existem notáveis exceções, como a Ouvidoria do CNPq – Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, fundação vinculada à estrutura do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, onde a instituição da ouvidoria foi resultado de reivindicação da associação de servidores e cujo ouvidor é eleito e possui mandato. Outro bom exemplo é o dos agências regulamentadoras, cujo ouvidor não pertence ao órgão e é nomeado pelo Presidente da República, também com mandato.

Exemplo inequívoco da importância da regulamentação é o fato de que a aprovação da Lei de Acesso à Informação, a Lei n º12.527, de 18/11/2011, obrigou os ministérios a criarem Serviços de Informação ao Cidadão (SIC), com prazos para resposta aos pedidos formulados e responsabilização dos dirigentes responsáveis pelos dados. A formalização destas atividades é muito superior à das ouvidorias e, embora instituições distintas e com propósitos diferentes, os SICs de certa forma estão “engolindo” as ouvidorias.

A atual equipe da Ouvidoria-Geral da União trabalha no sentido de estabelecer critérios que sirvam de parâmetros para o estabelecimento e funcionamento das ouvidorias do Poder Executivo, bem como dos principais elementos e requisitos para a formação dos ouvidores. Nada obstante, existe uma iniciativa em tramitação na Câmara dos Deputados. A seguir, o que postei sobre o assunto.

- A regulamentação da atividade de Ouvidoria:

- A primeira iniciativa para regulamentar a atividade de Ouvidoria. Trata-se de um projeto pioneiro do Senador Marco Maciel, que não chegou a ser aprovado pelo Congresso Nacional:

- O projeto do Senador Marco Maciel. Nesta postagem o texo é transcrito na íntegra posto que não existe em meio eletrônico. É um raro documento histórico, conseguido graças à gentileza e à presteza no atendimento do setor de documentação da Câmara dos Deputados:


Créditos

Em qualquer atividade humana é necessário dar os devidos créditos a quem fez parte da experiência e a quem ajudou com orientações a respeito de uma atividade ainda em processo de construção.

O registro inicial refere-se a Antonio Carlos Morgado de Castro, primeiro Ouvidor-Geral do MCTI. Militar da reserva foi indicado para uma função da qual pouco tinha ouvido falar. Mesmo assim, como é próprio do espírito disciplinado dos militares, empenhou-se na nova atividade em regime de dedicação exclusiva. Concentrou-se tanto que, nos casos em que necessitávamos visitar outra Ouvidoria para recolher experiência e procedimentos, comentava ao final do dia: “foi um dia excelente, apesar do tempo que subtraímos das atividades da Ouvidoria”.  

Uma das preocupações do Dr. Morgado era colocar realizações da Ouvidoria nos relatórios. Não se conformava muito com a alegação de que uma ouvidoria não patrocina obras tal como uma prefeitura. Felizmente acabamos tendo uma realização, embora não creditada à Ouvidoria mas ao setor que a operacionalizou. Fomos procurados por uma servidora que sugeriu a instalação no hall do prédio de um coletor de pilhas, um papa-pilhas. Apresentamos a sugestão e pedimos providências ao setor próprio do ministério que, por meio de negociações com um banco comercial, conseguiu instalar um depósito específico para a coleta de pilhas. A lição a ser tirada é que, sem o respaldo da Ouvidoria provavelmente seria difícil que a sugestão fosse acolhida por alguma chefia imediata e levada ao setor competente.

Luis Gustavo de Paula Freitas Frazão, jovem recém-ingresso no serviço público, participou por um tempo relativamente curto da Ouvidoria do MCTI, afastando-se para assumir cargo público em outro concurso no qual havia sido aprovado. No tempo em que trabalhou conosco revelou-se um talento extraordinário para o tipo de serviço e seu espírito de pesquisador em muito auxiliou nossas tarefas. Uma grande coleta de dados para apresentação à Corregedoria Geral da União só foi possível graças ao seu empenho no preparo da documentação.

Especial agradecimento merece Eduardo Ramos Ferreira da Silva, que se dispôs a cobrir o extenso período em que fiquei de licença médica, cerca de seis meses, sem receber um único centavo pela tarefa. Este tipo de solidariedade e disponibilidade humana é característica cada mais rara no serviço público.
  
                                                                      
Eduardo Ramos

Para assegurar boas condições de trabalho aos analistas, foi necessário contar com a colaboração e o empenho de secretárias e estagiários. Já foram secretárias Leide Silva Barbosa e Vanusa de Jesus Medeiros, a atual é Izabel Duarte. E os estagiários que já passaram pela Ouvidoria: Jacilda Freitas Sámenezes, Daniel do Nascimento Nunes e Fernanda Cristine Bruch.

Os registros seguintes referem-se a pessoas com experiência na área e que muito ajudaram em especial nas primeiras horas da nova atividade. Neiva Renck: foi a primeira Ouvidora do Ministério da Previdência Social, hoje a maior ouvidoria pública da América Latina. Na época em que a conhecemos era Ouvidora do Ministério da Integração Nacional e, por suas orientações, tornou-se uma espécie de “madrinha” de nossa Ouvidoria. Nancir Sathler: foi Ouvidora da Secretaria de Ciência e Tecnologia do Estado do Rio de Janeiro e atualmente é Ouvidora da FAETEC – Fundação de Apoio à Escola Técnica do Estado do Rio de Janeiro. Jovem, caracteriza-se por um grande entusiasmo pelo exercício da atividade e pela proposição de novas iniciativas. Finalmente, Carmen Calado, ex-Ouvidora da Universidade Federal do Rio Grande do Norte e atualmente Presidente do Fórum Nacional de Ouvidorias Universitárias. Quando na UFRN, cuja Ouvidoria fica em um prédio com paredes de vidro no centro do campus, ganhou tanta credibilidade na função que certa feita recebeu a visita de várias dezenas de alunos, os quais, ao invés de invadirem prédios da universidade como tem sido de praxe no movimento estudantil, procuraram a Ouvidoria como instância intermediária de suas reivindicações junto à Reitoria.

Nancir Sathler e Carmen Calado

Estudo de caso

A Ouvidoria-Geral da União criou uma Casoteca de Ouvidorias Públicas, isto é, um banco de informações para reunir estudos de casos que sirvam como orientação às demais ouvidorias. O estudo que apresentei, “Como responder a uma questão fora dos cânones”, foi aprovado para fazer parte da Casoteca e pode ser localizado por meio do seguinte link:


Comentário final

Foi lançado recentemente o livro “Ouvidoria Mídia Organizacional”, organizado por Luiz Carlos Assis Iazbeck (Porto Alegre, Sulina, 2012). A sua publicação é produto de uma pesquisa e de um conjunto de estudos conduzidos pelo Prof. Iazbeck com o apoio financeiro do CNPq. Como parte do trabalho, uma bolsista de iniciação científica veio me entrevistar. Ao final fez a seguinte pergunta, que não estava no roteiro: “o senhor gosta deste trabalho?” Respondi de imediato: “adoro”. Ela comentou que era o sexto ouvidor que tinha entrevistado e que todos tinham dado a mesma resposta. Isto em si mereceria um estudo à parte. Principalmente porque esta primeira geração de ouvidores chegou à função pelos caminhos mais diversos, por indicações que provavelmente atendiam às circunstâncias de cada instituição. E, nada obstante, todos acabaram se envolvendo intensamente com o trabalho e gostando do que fazem. Ou faziam, como é o presente caso.

Vida que segue...

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sábado, 7 de julho de 2012

A VIDA NA UNIVERSIDADE – CONTINUAÇÃO (Porto Alegre – ParteXI)


Nossos inesquecíveis professores (2): os de Sociologia

O Curso de Ciências Sociais que fiz possuía três grandes desdobramentos temáticos: Antropologia, Sociologia e Ciência Política.  Minha concentração de créditos foi nas duas últimas. Pela sua importância dentro do curso os seus professores destes núcleos foram os que mais marcaram. Assim penso. 

O primeiro dos nossos professores de Sociologia foi Laudelino T. Medeiros, pioneiro no estudo das malocas (como as favelas são chamadas em Porto Alegre). Em 1951 o Prof. Laudelino Medeiros publicou o ensaio “Vilas de Malocas – Ensaio de Sociologia Urbana”. Este trabalho serviu de inspiração e motivação para Ruth Wigner, minha colega, cuja dissertação de mestrado intitula-se “Nível de satisfação dos moradores da Vila Restinga – uma comunidade planejada”. Curiosidade: o jogador de futebol Tinga, ex-Internacional e atualmente no Cruzeiro, tem este apelido por ter nascido na Restinga. O Prof. Laudelino era um conservador assumido. Gostava de vez por outra cunhar alguma frase de efeito. Sua preferida era: “a pobreza limpa comove”. Poderia até ser a gênese da expressão atual: “sou pobre mas sou limpinho”.

   
A Vila Restinga, na atualidade
  
Outro professor de Sociologia foi Jorge Furtado, simpaticíssimo e constantemente risonho. Foi quem primeiro nos ensinou sobre o funcionalismo, teoria sociológica proposta por Talcott Parsons. Jorge Furtado era dado a digressões, a vôos de imaginação, quando aventava a possibilidade da existência de algumas coisas ou usos não existentes e sua provável repercussão social.

João Guilherme Corrêa de Souza

Mas, quem mais nos marcou, até pelo seu jeito mais extrovertido, foi João Guilherme Corrêa de Souza. Conduzia a disciplina na forma de seminários e foi quem nos iniciou em Max Weber. João Guilherme costumava dizer aquelas obviedades nem sempre aceitas por questão de pudores. Por exemplo, dizia que todo professor tem preferência por certos alunos. Ainda que no caso dele o fosse por certas alunas. Mas tinha o bom senso de não exemplificar. Era visível sua satisfação quando, nos seminários, em que sentávamos em círculo, as mais bonitas ficavam perto dele. Costumava também dizer que não emprestava livro para ninguém, porque tinha horror a que seus livros pudessem ficar marcados por impressões digitais. No que também estava certo. Quem quer tenha livros costuma ser ciumentíssimo e não gosta de emprestá-los. Fazia questão de usar um vocabulário escorreito. E recomendava a leitura de livros de literatura para aprimorar a linguagem. Ele próprio às vezes reconhecia: “preciso reler Machado de Assis. Quando passo muito tempo sem reler Machado, até os adjetivos coloco mal”.

João Guilherme foi o único professor que nos levou a visitar uma maloca. A intenção era, naturalmente, conhecer ao vivo a realidade social da qual só tomávamos conhecimento por meio das leituras. Conseguiu o ônibus da universidade e conduziu a visita com todo o cuidado e competência, inclusive evitando que nos dispersássemos ou entrássemos em qualquer situação de risco. Embora naqueles anos a violência nestes lugares não fosse tão exponencial quanto hoje, mesmo assim era prudente ter  um mínimo de cautela.

Depois que segui a vida por estrada afora, certa ocasião o Prof. João Guilherme apareceu em Brasília e foi me visitar. Se já contei, repito: no âmbito doméstico e durante todo o tempo em que vivi no Sul, sempre fui tratado pelo primeiro nome, Raimundo, herdado do pai José Raimundo. Quando fui para Teresina, onde este nome só não é mais comum do que no Maranhão dos Raimundos Nonatos, o reitor da Universidade Federal do Piauí, o mineiro Hélcio Ulhôa Saraiva, decretou que eu tinha que ser conhecido pelo segundo nome, Tadeu, afinal tinha tanto Raimundo por lá que até o seu motorista se chamava assim. Tadeu, é oportuno esclarecer, deve-se ao meu padrinho São Judas Tadeu. Pois dito e feito. Quando vim para Brasília já estava consagrado o chamamento pelo segundo nome. Mas João Guilherme não sabia disto. Telefona para a Capes, onde eu trabalhava, e pergunta: “cadê o poeta? cadê Raimundo Corrêa?” Ninguém me conhecia assim, mas finalmente alguém conseguiu associar o nome à pessoa. Aí aparece no meu apartamento. Ao me ver, depois de tantos anos, faz um estardalhaço: “mas mudastes muito, mudastes até o nome”.


Uma foto com valor documental


Na parte de baixo do grupo, o grandalhão que aparece em primeiro lugar à esquerda é Sergius Gonzaga, nosso eficiente goleiro. Quando a agilidade não era suficiente o seu tamanho ajudava a fechar o gol. Sergius Gonzaga, que mais tarde tornou-se professor de literatura da UFRGS, e foi um dos coordenadores das obras “Nós, os Gaúchos” e Nós, os Gaúchos 2”, publicadas pela Editora da Universidade, é atualmente Secretário de Cultura da Prefeitura de Porto Alegre. Estou na parte superior, primeiro à esquerda.


Voltando ao teclado... da máquina

Como herança da Ala Jovem do MDB sobrou-me o contato com um cidadão de nome chinês, difícil de esquecer porque exótico mas que aqui deixa de ser identificado por razões óbvias, que havia montado um curso de datilografia cujo principal atrativo era ser de graça. De graça exceto a matrícula, que já tinha embutida os custos do aprendizado. Neste curso, atuei como professor no período noturno. Durante um mês e meio aproximadamente. Encerrei minha participação de inopino por conta de duas coisas, uma consequência da outra. A primeira era que o referido cidadão considerava uma ofensa pessoal utilizar o verbo “pagar”. Outra que descobri que as máquinas de datilografar, novas, recém compradas, não tinham nenhuma de suas prestações pagas. Pareceu-me, prudente, portanto, esquecer o assunto e deixar por isto mesmo.

É provável que o referido cidadão tenha reincidido em alguma coisa. Consultando seu nome pelo Google verifiquei que o Diário da Justiça do Estado do Rio Grande do Sul, Edição Extra de 08/05/2012, publicou ato do Presidente do Tribunal de Justiça eliminando processos já baixados e arquivados, entre os quais um que ele constava como objeto da ação. Da qual não se tem informação, mas que para quem o conheceu é possível deduzir.

Bateu saudade?

O prezado leitor ao ver a nota acima sentiu saudade das velhas máquinas de datilografar? Mas não quer abdicar das conquistas tecnológicas atuais? Saiba que é possível juntar os dois mundos:


Veja, a respeito, o site http://www.usbtypewriter.com/. Com um kit de adaptação é possível catar milho nos tablets, sem perder a possibilidade de utilizar a velha máquina com papel convencional. 

 E por aqui ficamos. 


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sábado, 30 de junho de 2012

NOS BANCOS ESCOLARES DA UNIVERSIDADE (Porto Alegre – Parte X)


Nossos inesquecíveis professores (1): o folclore dos operários da construção

Em qualquer curso de nível superior existem disciplinas centrais e aquelas que ajudam a compor o currículo. Para relembrar: trata-se aqui do Curso de Ciências Sociais da Faculdade de Filosofia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, década de 60. O curso, na época, possuía três áreas de concentração: Sociologia, Ciência Política e Antropologia. Optei pelas duas primeiras. Os professores que aqui serão abordados lecionavam disciplinas que não pertenciam ao núcleo central e constituíam aquele abnegado segmento encarregado de colocar os tijolos básicos de nossa construção. Pelo teor das historinhas, nenhum dos professores é identificado.


O professor de Economia, prestes a aposentar, estava visivelmente enfadado com a vida. Vivia no piloto automático. O negócio é o seguinte: professor prepara um curso com afinco na primeira vez; na segunda, faz os ajustes necessários; dali para diante vai no piloto automático. Claro que isto é mais fácil em disciplinas cujo conteúdo não muda, como matemática, estatística. Nas áreas das ciências sociais é muito mais complicado porque como não se trata de um conhecimento consolidado e definitivo, é preciso estar sempre atualizado com novas pesquisas e novos enfoques conceituais. Mas nosso mestre literalmente ditava suas aulas. As anotações estavam em fichas manuscritas. Um belo dia se superou. Estava ditando uma fichinha quando de repente parou, pensou um pouquinho e pediu: “deixem um espaço em branco porque não estou reconhecendo minha própria letra”. O cansado guerreiro não se dava mais nem ao trabalho de um pequeno improviso. Não reconhecera apenas uma palavra...


Outro professor que ditava aulas era o de História Econômica. Adjunto do titular, muito inteligente, trazia todo o conteúdo de suas aulas transcrito em folhas grandes que passava a aula inteira lendo. Eu ficava inconformado porque, afinal, ele era jovem e visivelmente entendia do assunto. Um dia, conversando em um intervalo, perguntei porque ele usava aquele procedimento. Contou que antes lecionava de forma normal, mas acabou tendo uns probleminhas com a área de segurança por conta de uns comentários que havia feito. E isto que não se tratava de nenhum radical... Por precaução, passou a escrever as aulas antecipadamente e a ler o texto porque assim eliminaria a possibilidade de novamente fazer algum comentário que lhe fosse prejudicial, além de ter uma comprovação do que foi dito.

Foi em sua disciplina que certa vez aconteceu o seguinte episódio. O professor tinha marcado um trabalho em grupo. Mas, como meu grupo só tinha despreocupados, faltando um dia para a apresentação do trabalho não tínhamos produzido nada. O esquema de emergência foi o seguinte: um dos colegas do grupo era padre jesuíta que conseguiu uma sala à noite no Colégio Anchieta, quando não havia atividade didática, com máquina de escrever à disposição. Como a situação era de emergência a solução também tinha de ser. Resolvi que não iria fazer sozinho nenhuma pesquisa exaustiva. Optei por datilografar praticamente na íntegra um artigo de Celso Furtado sobre a fase da economia do café, publicado na Revista Civilização Brasileira. Naturalmente modifiquei o título e subtítulos e fiz leves retoques nas frases para tornar o texto mais, digamos, coloquial. Um trabalho de alfaiataria literária. Datilografado, o trabalho ficou bonitinho. Mas havia um grande risco. Não por parte do professor, que provavelmente não conhecia o texto de Furtado por razões ideológicas, e que certamente daria nota pelo jeitão do trabalho. O risco eram os colegas. Como os trabalhos tinham que ser lidos parcialmente para toda a classe e depois comentados, ainda que superficialmente, era grande a chance de que alguém conhecesse aquele texto e falasse alguma coisa a respeito; nestas horas não se pode confiar inteiramente na solidariedade coletiva e além do mais era preciso preservar a honra. Assim, na hora da apresentação, eu, que leria nosso texto, estava meio inquieto, esperando ser chamado para enfrentar o matadouro. Aí surgiu uma oportunidade inesperada que aproveitei na mesma hora. Um dos grupos era só de meninas, felizmente todas muito tímidas, e que, na ausência da escolhida para relatora, estavam com vergonha de ler o seu trabalho para os colegas. Tive a idéia de me oferecer para ler o trabalho delas. Como todas concordaram e o professor também, assim foi feito. Aí, quando chegou a nossa vez, não precisei nem me preocupar: o professor nos dispensou da leitura, já que eu tinha feito a apresentação do outro trabalho. Resultado: ficamos com nota máxima e com a honra preservada.


No primeiro dia de aula o professor de Psicologia Social comportou-se como um artista no palco: chegou de terno escuro e óculos de sombra e ficou um tempão sentado nos observando, sem dizer nada. Algumas aulas depois, quando já tínhamos quebrado a barreira inicial, perguntamos o porquê de sua atitude. Queria apenas observar nossa reação. Coisas da profissão. Contava que tinha colegas com clínica que faziam de tudo para que os pacientes não identificassem suas preferências pessoais. Um deles se vestia sempre de cinza. Exemplo de comportamentos curiosos aparentemente característicos da referida categoria profissional. As aulas de Psicologia Social resultaram muito interessantes, não só pelo sentido da disciplina, útil para nós estudantes de sociologia, mas também porque com frequência desbordava para aspectos de psicologia no sentido lato, como nos momentos em que o professor interpretava os sonhos relatados por alguma colega. A disciplina começou com um estranhamento e transformou-se em aulas alegres e festivas.


Mas, como nenhum mestre era de ferro o lado humano acabava se sobrepondo. Em um dia de prova, o professor estava no estrado meio enfadado. Não precisava se preocupar com a possibilidade de cola, porque em sociologia ou em política não adiantava colar, eram questões de aplicação de raciocínio. Quando terminei minha prova e fui entregar o trabalho, o professor me passa um dinheiro e pede para ir no barzinho do centro acadêmico comprar um guaraná. O lance era o seguinte: eu já estava instruído para comprar uma cerveja uruguaia, de casco igual ao da garrafa de guaraná, e de retirar seu rótulo. E assim foi feito.

Foi de um professor americano, de origem judaica, que comprei meu primeiro radinho portátil. O professor esteve um certo tempo em nosso curso e, antes de voltar para os Estados Unidos, vendeu praticamente tudo o que tinha, com a óbvia exceção da roupa do corpo. O radinho era lindaço: AM e FM em um tempo que não tínhamos emissoras transmitindo na frequência de FM. Como desconhecia o assunto, o professor me explicou corretamente que se tratava de um tipo de transmissão ainda não disponível em Porto Alegre mas que era o futuro do rádio. Picardia, nosso colega de pensão entendido no assunto, explicou de uma forma mais simples: era a faixa em que as emissoras de televisão transmitiam seu som.  Mas a faixa de frequência das emissoras de TV não é a mesma utilizada pelas rádios. Como em Porto Alegre elas coincidiam apenas em uma determinada faixa do espectro, conseguia sintonizar apenas o som de uma ou duas emissoras de TV. Além disso, o radinho usava bateria, outra novidade na época, mas que era muito cara para o dia-a-dia de um estudante, obrigando a um uso de forma criteriosa. Fiquei pouco tempo com o radinho. Certa ocasião, quando estava hospedado no apartamento de um colega, uns garotos fizeram uma limpa levando roupas e o que puderam pegar, incluindo meu radinho. Foi-se, mas deixou saudades. Mesmo sem nunca ter sido usado em sua finalidade precípua de receber sinais de rádios FM.

E la nave va...

Enquanto a vida universitária seguia seu curso, a vida em nossa pensão também. Futebol, nas quadras da Praça da Redenção, era a diversão preferida dos fins de semana. Abaixo uma lembrança deste período.



Em cima, o primeiro à esquerda era Carlos Zen, depois o “Doutor” e então ”Picardia” (de quem já falei antes, na postagem Paralelo 30 Brasileiro, início da série sobre porto Alegre). Embaixo, sou o terceiro da esquerda para a direita.

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