sábado, 30 de junho de 2012

NOS BANCOS ESCOLARES DA UNIVERSIDADE (Porto Alegre – Parte X)


Nossos inesquecíveis professores (1): o folclore dos operários da construção

Em qualquer curso de nível superior existem disciplinas centrais e aquelas que ajudam a compor o currículo. Para relembrar: trata-se aqui do Curso de Ciências Sociais da Faculdade de Filosofia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, década de 60. O curso, na época, possuía três áreas de concentração: Sociologia, Ciência Política e Antropologia. Optei pelas duas primeiras. Os professores que aqui serão abordados lecionavam disciplinas que não pertenciam ao núcleo central e constituíam aquele abnegado segmento encarregado de colocar os tijolos básicos de nossa construção. Pelo teor das historinhas, nenhum dos professores é identificado.


O professor de Economia, prestes a aposentar, estava visivelmente enfadado com a vida. Vivia no piloto automático. O negócio é o seguinte: professor prepara um curso com afinco na primeira vez; na segunda, faz os ajustes necessários; dali para diante vai no piloto automático. Claro que isto é mais fácil em disciplinas cujo conteúdo não muda, como matemática, estatística. Nas áreas das ciências sociais é muito mais complicado porque como não se trata de um conhecimento consolidado e definitivo, é preciso estar sempre atualizado com novas pesquisas e novos enfoques conceituais. Mas nosso mestre literalmente ditava suas aulas. As anotações estavam em fichas manuscritas. Um belo dia se superou. Estava ditando uma fichinha quando de repente parou, pensou um pouquinho e pediu: “deixem um espaço em branco porque não estou reconhecendo minha própria letra”. O cansado guerreiro não se dava mais nem ao trabalho de um pequeno improviso. Não reconhecera apenas uma palavra...


Outro professor que ditava aulas era o de História Econômica. Adjunto do titular, muito inteligente, trazia todo o conteúdo de suas aulas transcrito em folhas grandes que passava a aula inteira lendo. Eu ficava inconformado porque, afinal, ele era jovem e visivelmente entendia do assunto. Um dia, conversando em um intervalo, perguntei porque ele usava aquele procedimento. Contou que antes lecionava de forma normal, mas acabou tendo uns probleminhas com a área de segurança por conta de uns comentários que havia feito. E isto que não se tratava de nenhum radical... Por precaução, passou a escrever as aulas antecipadamente e a ler o texto porque assim eliminaria a possibilidade de novamente fazer algum comentário que lhe fosse prejudicial, além de ter uma comprovação do que foi dito.

Foi em sua disciplina que certa vez aconteceu o seguinte episódio. O professor tinha marcado um trabalho em grupo. Mas, como meu grupo só tinha despreocupados, faltando um dia para a apresentação do trabalho não tínhamos produzido nada. O esquema de emergência foi o seguinte: um dos colegas do grupo era padre jesuíta que conseguiu uma sala à noite no Colégio Anchieta, quando não havia atividade didática, com máquina de escrever à disposição. Como a situação era de emergência a solução também tinha de ser. Resolvi que não iria fazer sozinho nenhuma pesquisa exaustiva. Optei por datilografar praticamente na íntegra um artigo de Celso Furtado sobre a fase da economia do café, publicado na Revista Civilização Brasileira. Naturalmente modifiquei o título e subtítulos e fiz leves retoques nas frases para tornar o texto mais, digamos, coloquial. Um trabalho de alfaiataria literária. Datilografado, o trabalho ficou bonitinho. Mas havia um grande risco. Não por parte do professor, que provavelmente não conhecia o texto de Furtado por razões ideológicas, e que certamente daria nota pelo jeitão do trabalho. O risco eram os colegas. Como os trabalhos tinham que ser lidos parcialmente para toda a classe e depois comentados, ainda que superficialmente, era grande a chance de que alguém conhecesse aquele texto e falasse alguma coisa a respeito; nestas horas não se pode confiar inteiramente na solidariedade coletiva e além do mais era preciso preservar a honra. Assim, na hora da apresentação, eu, que leria nosso texto, estava meio inquieto, esperando ser chamado para enfrentar o matadouro. Aí surgiu uma oportunidade inesperada que aproveitei na mesma hora. Um dos grupos era só de meninas, felizmente todas muito tímidas, e que, na ausência da escolhida para relatora, estavam com vergonha de ler o seu trabalho para os colegas. Tive a idéia de me oferecer para ler o trabalho delas. Como todas concordaram e o professor também, assim foi feito. Aí, quando chegou a nossa vez, não precisei nem me preocupar: o professor nos dispensou da leitura, já que eu tinha feito a apresentação do outro trabalho. Resultado: ficamos com nota máxima e com a honra preservada.


No primeiro dia de aula o professor de Psicologia Social comportou-se como um artista no palco: chegou de terno escuro e óculos de sombra e ficou um tempão sentado nos observando, sem dizer nada. Algumas aulas depois, quando já tínhamos quebrado a barreira inicial, perguntamos o porquê de sua atitude. Queria apenas observar nossa reação. Coisas da profissão. Contava que tinha colegas com clínica que faziam de tudo para que os pacientes não identificassem suas preferências pessoais. Um deles se vestia sempre de cinza. Exemplo de comportamentos curiosos aparentemente característicos da referida categoria profissional. As aulas de Psicologia Social resultaram muito interessantes, não só pelo sentido da disciplina, útil para nós estudantes de sociologia, mas também porque com frequência desbordava para aspectos de psicologia no sentido lato, como nos momentos em que o professor interpretava os sonhos relatados por alguma colega. A disciplina começou com um estranhamento e transformou-se em aulas alegres e festivas.


Mas, como nenhum mestre era de ferro o lado humano acabava se sobrepondo. Em um dia de prova, o professor estava no estrado meio enfadado. Não precisava se preocupar com a possibilidade de cola, porque em sociologia ou em política não adiantava colar, eram questões de aplicação de raciocínio. Quando terminei minha prova e fui entregar o trabalho, o professor me passa um dinheiro e pede para ir no barzinho do centro acadêmico comprar um guaraná. O lance era o seguinte: eu já estava instruído para comprar uma cerveja uruguaia, de casco igual ao da garrafa de guaraná, e de retirar seu rótulo. E assim foi feito.

Foi de um professor americano, de origem judaica, que comprei meu primeiro radinho portátil. O professor esteve um certo tempo em nosso curso e, antes de voltar para os Estados Unidos, vendeu praticamente tudo o que tinha, com a óbvia exceção da roupa do corpo. O radinho era lindaço: AM e FM em um tempo que não tínhamos emissoras transmitindo na frequência de FM. Como desconhecia o assunto, o professor me explicou corretamente que se tratava de um tipo de transmissão ainda não disponível em Porto Alegre mas que era o futuro do rádio. Picardia, nosso colega de pensão entendido no assunto, explicou de uma forma mais simples: era a faixa em que as emissoras de televisão transmitiam seu som.  Mas a faixa de frequência das emissoras de TV não é a mesma utilizada pelas rádios. Como em Porto Alegre elas coincidiam apenas em uma determinada faixa do espectro, conseguia sintonizar apenas o som de uma ou duas emissoras de TV. Além disso, o radinho usava bateria, outra novidade na época, mas que era muito cara para o dia-a-dia de um estudante, obrigando a um uso de forma criteriosa. Fiquei pouco tempo com o radinho. Certa ocasião, quando estava hospedado no apartamento de um colega, uns garotos fizeram uma limpa levando roupas e o que puderam pegar, incluindo meu radinho. Foi-se, mas deixou saudades. Mesmo sem nunca ter sido usado em sua finalidade precípua de receber sinais de rádios FM.

E la nave va...

Enquanto a vida universitária seguia seu curso, a vida em nossa pensão também. Futebol, nas quadras da Praça da Redenção, era a diversão preferida dos fins de semana. Abaixo uma lembrança deste período.



Em cima, o primeiro à esquerda era Carlos Zen, depois o “Doutor” e então ”Picardia” (de quem já falei antes, na postagem Paralelo 30 Brasileiro, início da série sobre porto Alegre). Embaixo, sou o terceiro da esquerda para a direita.

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sábado, 23 de junho de 2012

O ASSOMBRO DA LUTA PELA VIDA


Das lembranças inocentes às trevas do coração

Todas as pessoas têm algo a contar. Têm a sua história
 e as suas “estórias”. Histórias e estórias saborosas e
 insípidas; doces e amargas; bonitas e feias; alegres e tristes;
 ricas e pobres; agradáveis e desprezíveis.
Moaci Madeira Campos

Antes de abordar as lembranças e histórias dos professores de meu curso universitário, acho oportuno dizer alguma coisa sobre como a memória se manifesta nestes casos. Apresento também o relato de uma situação singular, quando a memória é só o que resta. Gostaria de ser versado na obra de Ivan Izquierdo, argentino, atualmente professor da UFRGS, e um dos maiores especialistas em questões relacionadas à neurobiologia da aprendizagem e da memória, para poder tratar da manifestação das lembranças de uma forma mais criteriosa. Não tenho, porém, esta bagagem acadêmica.

Todo mundo lembra dos seus mestres mais queridos. No entanto, há quem lembre com mais detalhe dos primeiros níveis de ensino, como minha colega Rosamaria Costa, que sabe até hoje o nome dos nossos professores do primário e do ginásio e lembra de cada um. Não é o meu caso, como já demonstrei em minhas escassas lembranças deste período. Acredito que Rosamaria, por morar perto da cidade natal e lá voltar com frequência, tem a memória reavivada por vivências e conversas.

O perfil das minhas lembranças encontra um bom exemplo no livro de onde foi retirada a epígrafe acima, “Reminiscências de um mestre-escola”, de Moaci Madeira Campos, renomado intelectual piauiense. Na obra ele relaciona todos os mestres do primário, mas apenas relaciona; já a partir dos cursos secundário e superior, além de referir-se nominalmente aos seus mestres e contar suas particularidades, ilustra com episódios da época de estudante.  De forma aproximada, minhas lembranças também privilegiam os professores da época de faculdade. No entanto, pareça haver algum consenso sobre a importância e às vezes até predominância das primeiras memórias.  Vou contar uma situação extrema.

Até recentemente, nossa chácara teve como caseiros casais do mesmo perfil: o marido trabalhando em outro emprego e sua mulher registrada como caseira. O primeiro destes casais foi o de seu Abílio e dona Tina (Militina), que criavam o filho Marcelo. Seu Abílio, de personalidade um pouco complicada, algo explosivo e temperamental, sofreu um derrame cerebral fortíssimo. Sobreviveu com muitas sequelas: ficou cego, paralisado de um lado e com forte prejuízo das capacidades motora e mental, isto é, sem condições de se movimentar e sem consciência do que se passava ao redor. Nestas condições ainda viveu 13 anos e seis meses, graças aos bons cuidados que recebeu de esposa e filho.

Sua primeira lição foi o incrível sentimento de sobrevivência, mesmo sem o uso racional de suas faculdades mentais. Quando o hospital verificou que não poderia fazer mais nada por ele, e que internado ficaria uma ocupando uma vaga útil para outros pacientes, pois a fila devia andar, foi despachado para casa com alimentação por sonda. O que era uma coisa complicada. A sonda irritava muito e ele volta e meia usava a mão livre para arrancá-la.



Das primeiras vezes vinha uma ambulância com enfermeiros para recolocar a sonda (o sistema público de saúde do Distrito Federal, apesar de muito precário e problemático felizmente neste caso sempre funcionou de forma eficiente). Pois bem, seu Abílio retira a sonda e a ambulância é chamada. Que veio, mas, como era época de chuva, não conseguiu superar os problemas de nossa ainda sofrível estrada de terra de acesso à chácara. A ambulância deu volta e durante dois dias as condições de tempo não melhoraram e o atendimento não pode ser feito. Diante disto, dona Tina experimentou lhe levar à boca uma colher com comida convencional. Prontamente aceita. A sonda nunca mais foi necessária. Veja-se, assim, como o nosso organismo por si só procura sempre agir no sentido de garantir sua sobrevivência. Sobrevivência como mero organismo vivo, não sobrevivência a partir de considerações intelectuais. O instinto de sobrevivência é, conforme visto, muito forte.

Pois bem, durante todos estes treze anos seu Abílio expressava apenas lembranças de sua infância, eventualmente da juventude. Falando sozinho dizia coisas do tipo “bença, mãe”, “bença, pai”, “mãe, estou com frio”, “mãe, deixa eu deitar com a senhora”... Mencionava o nome dos seus três irmãos, mas não mencionava o nome da mulher e do filho. Uma única vez pronunciou o nome da mulher: “Tina”. Em noites de lua cheia, ficava possesso. Passava a noite inteira gritando e vociferando. Para, evidentemente, ódio dos vizinhos. Vez por outra, notava-se que ele tinha alguma percepção sensorial, como ao virar a cabeça ao ouvir o barulho do motor de nosso carro. Uma gloriosa e saudosa Parati a álcool.


O seu lado sombrio de vez em quando vinha à superfície. Dona Tina conta que quando estava atacado ficava falando “bença, diabo”, “bença, capeta”. João Sales, marido de Sebastiana, caseira que substituiu dona Tina, diz que de vez em quando procurava conversar com seu Abílio, mesmo sabendo que ele não iria responder.  Certa noite, entrou no quarto onde ele estava sentado e buscou conversa. A reação foi inesperada e violenta: “eu vou te matar, eu vou te matar”. Segundo Eric Kandel, neurocientista, ganhador do Prêmio Nobel de 2000 de Medicina pelos estudos sobre o armazenamento da memória no cérebro, “a mente humana é muito complicada e muito dela é irracional, muito dela é o inconsciente que é influenciado por impulsos eróticos e agressivos”. A frase consta de uma entrevista, “As Artes do Cérebro”, publicada no caderno Eu & Fim de Semana, jornal Valor Econômico, 15 a 17/06/2012.

Assim, conforme vimos, no fundo do inconsciente existe um cantinho com algumas trevas que se manifestam quando encontram caminho livre.

As historinhas propriamente ditas sobre os inesquecíveis professores serão apresentadas na próxima postagem.


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sábado, 16 de junho de 2012

PREOCUPAÇÕES COM A VIDA ETERNA


A CRISTO S.N. CRUCIFICADO ESTANDO O POETA NA ÚLTIMA HORA DE SUA VIDA 

Gregório de Matos



Meu Deus, que estais pendentes de um madeiro,
Em cuja lei protesto de viver,
Em cuja santa lei hei de morrer
Animoso, constante, firme e inteiro;

Neste lance, por ser o derradeiro,
Pois vejo a minha vida anoitecer,
É, meu Jesus, a hora de se ver
A brandura de um Pai, manso Cordeiro.

Mui grande é vosso amor e o meu delito;
Porém pode ter fim todo o pecar,
E não o vosso amor, que é infinito.

Esta razão me obriga a confiar,
Que, por mais que pequei, neste conflito,
Espero em vosso amor de me salvar.



Gregório de Matos (1636-1695), nascido em Salvador, ficou conhecido pela alcunha “Boca do Inferno”, por conta de seus poemas satíricos e pelas críticas à Igreja Católica. Nada obstante, é considerado o maior poeta barroco do Brasil. Tinha alguns momentos de reconciliação com a fé católica, como o presente poema, e "A NSJC com actos de arrependido e suspiros de amor", "Buscando a Cristo", além de outros mais. Ou seja, de vez em quando tinha umas recaídas. Atualmente seria considerado portador de transtorno bipolar em questões de fé.


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sexta-feira, 8 de junho de 2012

A SUSTENTABILIDADE DO PADIM CIÇO


Próximos à realização da Rio +20, Conferência das Nações Unidas sobre o Desenvolvimento Sustentável,  que discutirá uma agenda do desenvolvimento sustentável para as próximas décadas, surpreende ver o que pensava a respeito o Padre Cícero (1844-1934). Cícero Romão Batista, o Padim Ciço cearense, objeto de devoção e romarias, reverenciado como santo milagreiro, foi também proprietário de terras e gado, tendo participado ativamente da vida política: foi Prefeito de Juazeiro do Norte, vice-Governador do Ceará e elegeu-se deputado federal, embora não tenha assumido o cargo. Esta participação na vida política refletia também sua preocupação com as condições de vida da população mais pobre. Abaixo estão transcritas suas recomendações para um desenvolvimento sustentável do sertão. Surpreende ver o acerto e a atualidade destes conselhos.

 
Padre Cícero aos oitenta anos

Padre Cícero já dizia como guardar e preservar a água e o sertão:

1.      “Não derrube o mato, nem mesmo um só pé de pau.
2.      Não toque fogo no roçado nem na caatinga.
3.      Não cace mais e deixe os bichos viverem.
4.      Não crie o boi nem o bode soltos; faça roçados e deixe o pasto descansar para se refazer.
5.      Não plante em serra acima nem faça roçado em ladeira muito em pé: deixe o mato protegendo a terra para que a água não a arraste e não se perca a sua riqueza.
6.      Faça uma cisterna no oitão de sua casa para guardar água da chuva.
7.      Represe os riachos de cem em cem metros, ainda que seja com pedra solta.
8.      Plante cada dia pelo menos um pé de algaroba, de caju, de sabiá ou outra árvore qualquer, até que o sertão todo seja uma mata só.
9.     Aprenda a tirar proveito das plantas da caatinga, como a maniçoba, a favela e a jurema; elas podem ajudar você a conviver com a seca.
10.   Se o sertanejo obedecer a estes preceitos, a seca vai aos poucos se acabando, o gado melhorando e o povo terá sempre o que comer.
11.   Mas se não obedecer, dentro de pouco tempo o sertão todo vai virar um deserto só.”

A citação acima foi extraída da “Cartilha do Produtor Orgânico do DF”, Brasília, 2010, publicação do Instituto Universitas em convênio com o Ministério da Ciência e Tecnologia, como resultado do Projeto “Melhoria da Produção e Comercialização de Produtos Orgânicos e do Arranjo Produtivo Local da Agricultura do DF”. A cartilha não informa, porém, a referência bibliográfica da citação nem em que contexto foi apresentada.


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domingo, 27 de maio de 2012

A FÚRIA DOS ELEMENTOS E UM POUCO DE POLÍTICA (Porto Alegre – Parte IX)


Peitando as intempéries... e perdendo feio

Enfrentar o inverno gaúcho é coisa para profissionais. Enfrentá-lo, sem ter todos os equipamentos desejáveis, como costuma ser o mais constante entre estudantes sem recursos, era tarefa literalmente hercúlea. Situação parecida com a do sentimento de pequenez do homem diante do universo, é a de sentir-se o ser mais ínfimo da terra quando o sujeito fica sem roupa em pleno inverno. Na minha época de estudante, as roupas de baixo masculinas, além da cueca, incluíam camiseta de manga comprida e cuecão, este mais conhecido como ceroula. O cuecão mais quente era o feito de flanela e, como o nome sugere, parecia uma cueca grande, isto é, com pernas longas, justas no corpo. Junto com a camiseta ambos serviam para manter a temperatura da pele em condições próximas à normalidade. Quando se tirava tudo isto logo em seguida o calor do corpo ia embora e o sujeito tiritava.

Uma autêntica ceroula

Para quem não associa o nome à pessoa, a ceroula era muito usada no Velho Oeste. Em qualquer filme do gênero quando o mocinho tinha que fugir às pressas por um telhado, com as roupas na mão e deixando a mocinha aflita, estava vestindo ceroula.

Uma vez queimou a resistência do nosso banheiro na pensão. Como o conserto demoraria além dos meus horários, resolvi enfrentar o banho frio. Um colega, que havia prestado serviço militar na fronteira, contava que os soldados eram submetidos às mais duras tarefas físicas em pleno inverno sob a alegação do sargento de que “o soldado é superior ao tempo”. Pensei lá com meus botões (antes de tirar a roupa, obviamente) que se o soldado era superior ao tempo, estudante também podia ser. Assim, depois de passar pela absoluta humilhação de ficar peladão em pleno ar gelado resolvi entrar de peito aberto embaixo do chuveiro com água fria. No auge do inverno gaúcho, ressalte-se novamente. Minha intenção era vencer a resistência à frieza da água e tomar um banho bem rápido. Mas, foi só cair a primeira lufada de pingos dágua que senti uma reação corporal tão forte que quase me provoca falta de ar. Saí dali imediatamente. Enquanto me recuperava da experiência, que durou apenas dramáticos segundos, cheguei à conclusão de que soldado até podia ser, mas estudante definitivamente não era superior ao tempo.


De outra feita, choveu em Porto Alegre durante trinta dias seguidos. Mês de junho ou julho, não lembro bem. Ou uma mescla dos dois, já que era época de aula. Para a gente, morador de pensão, foi um problema seriíssimo. A lavadeira vinha uma vez por semana pegar roupa para trazer na semana seguinte. Com a chuvarada não tinha como secar a roupa ao ar livre, que era, portanto, secada no ferro de passar. Naturalmente, o resultado não podia ser brilhante. O problema ficava mais complicado porque não tínhamos tanta roupa assim. Um dos colegas aproveitou para dramatizar ainda mais a situação nos seus informes à família, com a natural insinuação de que um reforço extra da mesada seria bem vindo. Este expediente só dava certo com famílias que tinham alguma elasticidade de renda, isto é, que podiam comportar gastos extras. Aos demais mortais só restava consolar-se.  

Galochas de borracha muito usadas nos anos 60 – modelo masculino (tive uma destas)

Outro problema provocado pela chuva continuada era ficar com o sapato constantemente encharcado. Aliás, naquelas condições de dilúvio à vista, não chegamos a morrer de pneumonia galopante certamente pela misericórdia do Altíssimo. Nesta época usava-se galocha. Um recurso muito útil, mas que ficou sepultado no tempo. A galocha era uma proteção do sapato, feita de um composto de borracha. Para andar na rua era ótima. O problema era ficar em um ambiente fechado, como na sala de aula. Não era de bom tom ficar de galochas, até porque não eram elegantes. A expressão “chato de galochas” aponta exatamente para o aspecto superlativo de quem não é bem recebido e ainda usa o referido artefato.

Traduzindo Mao

Um colega, envolvido em atividades clandestinas, me convidou a participar da tradução de um livrinho do Presidente Mao, Mao Tsé-Tung, da China. Não lembro o título, mas era um livrinho pequeno, de capa obviamente vermelha, talvez alguma coisa tipo “Pensamentos do Presidente Mao”. A edição que tínhamos era em espanhol. O texto em espanhol, por sua vez, era tradução da tradução da tradução. Nossa tarefa consistia em adaptar o texto para língua portuguesa. O que tentávamos fazer da melhor forma possível, porque o contexto das reflexões do Presidente Mao, a China rural, era uma realidade muito diferente da nossa. Muitas passagens eram confusas ou então absolutamente incompreensíveis. Nestes casos, inventávamos qualquer coisa que nos parecesse fazer sentido dentro dos propósitos da obra. Depois morríamos de rir. Enfim, meu pagamento era em jantares patrocinados em um restaurante chamado “Red Pig” (Porco Vermelho), no bairro de Santana, quero crer. Nunca soube se o nome do restaurante tinha alguma coisa a ver com atividades clandestinas, apesar de ser especializado em massas, as italianas felizmente. Como também nunca fiquei sabendo se aquele nosso texto foi aproveitado ou não. Se foi, com certeza não melhorou a compreensão política de ninguém.

Circulando pela Assembleia Legislativa

Logo no começo dos cursos acadêmicos as atividades escolares não eram tão pesadas e sobrava algum tempinho para a gente gastar. Assim, eu e outro colega passamos a frequentar as sessões da Assembleia Legislativa do RGS. Nesta época a chamada política estudantil, a dos grêmios estudantis, dos diretórios centrais de estudantes e da própria União Nacional dos Estudantes já empolgavam a participação dentro das universidades. Mas eu não estava disposto a me candidatar a mártir. O ambiente era muito pesado. Preferíamos algo mais ameno no sentido tradicional de participação política. Tínhamos alguma simpatia teórica pela Democracia Cristiana chilena, do Presidente Eduardo Frei, cuja organização partidária era muito interessante e incluía a organização de diversas atividades direcionadas para as populações mais carentes, no sentido de efetivamente lhes oferecer serviços e canais de cidadania sem a obrigatoriedade de que aquilo implicasse em assinar ficha no partido. De certa forma, alguma coisa um pouco parecida com o que a Rede Globo faz em suas Ações Globais. No Brasil havia o Partido Democrata Cristão, mas muito diferente do chileno e de atuação mais modesta no contexto brasileiro.

Tivemos uma experiência efêmera junto à Ala Jovem do PTB, o Partido Trabalhista Brasileiro, que depois foi o cerne do MDB, mais tarde transformado em PMDB. O PTB era o partido de Leonel Brizola. Quando ele voltou para o Brasil, após seu exílio político, perdeu o comando do partido para Ivete Vargas. Organizou, então, o atual PDT. A experiência foi efêmera porque descobrimos que Ala Jovem não significava o que imaginávamos. No PTB e também nos outros partidos a Ala Jovem era um expediente utilizado para dar oportunidades a políticos que não conseguiam se estabelecer nos Diretórios Regionais. Tampouco a programação da Ala Jovem era direcionada especificamente para problemas próprios da juventude.

Assembleia Legislativa do RGS no início dos anos 60

Em consequência, partimos para uma participação política do tipo “free lance”, basicamente como espectadores. Acompanhar as sessões da Assembleia Legislativa do RGS não era necessariamente enfadonho. O Rio Grande do Sul sempre se notabilizou por ter como políticos grandes tribunos. Era isto que nos atraía, em especial os inflamados discursos de Cândido Norberto, do PSB, Partido Socialista Brasileiro, que acabou cassado em 1966. Fora do horário das sessões ficávamos perambulando pela Casa, vendo uma coisa aqui, outra ali, inclusive conhecendo situações internas e até mesmo dramas humanos que não eram explorados pela imprensa.  Acabamos fazendo pouso na diminuta bancada do MTR, Movimento Trabalhista Renovador, na época composta por três parlamentares, um deles de sobrenome Fensterseifer, parente de um centro-médio do Grêmio, Elton Fensterseifer, o que parecia ser uma credencial suficiente. Sempre nos receberam bem e conversavam muito conosco, inclusive porque tinham interesse em saber das razões porque a participação política convencional não conseguia atrair os universitários, justo a parcela mais promissora da juventude. O MTR foi criação do Deputado Fernando Ferrari, que ficou conhecido nacionalmente com a sua “Campanha das mãos limpas”, contra a corrupção dos dirigentes partidários. Veja-se, portanto, que esses problemas da classe política já vêm de longa data.

Conseguimos alguns exemplares do Diário da Assembleia de grande interesse histórico, os que traziam os discursos da oposição logo nos primeiros dias após a queda do governo civil. Infelizmente não conservei esse material. Acho que os meus exemplares devem ter ficado com meu colega. É muito provável que atualmente seja muito difícil conseguir este material, principalmente porque naqueles tempos os arquivos de documentos eram físicos e estes que mencionei devem ter sido posteriormente censurados.

Enfim, foi uma curta experiência mas muito interessante.

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sábado, 12 de maio de 2012

BONDES ELÉTRICOS E BORBOLETAS (Porto Alegre – Parte VIII)


Andando de bonde


Durante o curso universitário meu transporte preferencial era o bonde. Nos anos 60, em Porto Alegre, o predomínio do transporte coletivo já pertencia aos ônibus, os bondes resistiram até 1970. Uma das primeiras coisas que se aprendia era como tomar o bonde em movimento e, depois, saber como saltar também em movimento. Pegar o bonde em movimento era fácil. Descer, nem tanto, se o camarada não pegasse o jeito corria grande risco de cair estatelado no chão.

Bondes no centro de Porto Alegre

Os bondes, da Companhia Carris, eram mais baratos do que os ônibus. Mas, a principal razão pela minha preferência era de ordem prática. De onde morava, no bairro Bom Fim, até o ponto em que descia para ir para a faculdade, era uma distância, digamos, média. Dava perfeitamente para voltar a pé, devagarito no más.  Mas, para ir, demandava um certo tempo e corria-se o risco de perder o horário das aulas. Os ônibus, mais rápidos, passavam cheíssimos nos horários de pico, justo quando eu precisava me deslocar. Então, se resolvesse ir de ônibus podia não conseguir vencer a massa humana e chegar até a porta da frente para descer no meu ponto. Os bondes eram mais calmos e não tão lotados. Além do mais eram de um charme inexcedível. Quando os transportes públicos eram o principal meio de transporte, os bondes eram frequentados por passageiros de todas as classes sociais. Quem já andou de bonde em Porto Alegre guarda na memória uma propaganda antológica fixada no seu interior: “Veja ilustre passageiro / o belo tipo faceiro / que está sentado ao seu lado / quase morreu de bronquite / no entanto, acredite / salvou-o o Rum Creosotado”.

Nem todos, no entanto, conhecem esta história: a participação dos bondes no hino do Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense, de autoria do grande compositor gaúcho Lupicínio Rodrigues. Os versos iniciais do hino são os seguintes: “Até a pé nos iremos / para o que der e vier / mas o certo é que nós estaremos / com o Grêmio onde o Grêmio estiver”. Lupicínio, grande torcedor do Grêmio, estava se preparando para assistir a mais uma partida do time, em 1953. Justo naquele dia os motorneiros (condutores dos bondes) da Companhia Carris entraram em greve. Lupicínio foi a pé para o estádio. Na volta, em uma mesa de bar, usou o episódio como inspiração para compor o hino. E assim uma circunstância efêmera assume outra dimensão e acaba se perpetuando.

Uma coisa puxa outra

Como nosso curso universitário já obedecia ao regime de créditos, com a universidade  estruturada em departamentos, era comum termos colegas de outros cursos em algumas das disciplinas. Por exemplo, no blog da minha colega Marina, http://marinalimaleal.blogspot.com.br/2012/03/foto-da-formatura-na-ufrgs.html, na postagem intitulada “Foto da formatura na UFRGS”, de 11/02/2012, aparece Ana Lúcia Paiva, que veio a ser a primeira esposa de Luiz Coronel, e que na época estavam namorando. Luiz Coronel, ciumentíssimo, mesmo não estando matriculado na disciplina acompanhava a moça durante as aulas. Ana Lúcia depois foi para a área de Direito e se tornou juíza. 

 Marina Lima (a primeira à esquerda) e Ana Lúcia Paiva (ao seu lado)

Luiz Coronel é cidadão de múltiplos talentos: publicitário, compositor e escritor, foi também magistrado e professor. Nasceu em Bagé, mas fora do Rio Grande do Sul tem muita gente que já ouviu falar dele sem saber associar o nome à pessoa. É que o compositor Renato Teixeira na sua música “Amanheceu, peguei a viola” lá pelas tantas tem o seguinte verso: “Em Porto Alegre um tal de Coronel / Pediu que eu musicasse uns versos que ele fez / Para uma china, que pela poesia / Nem lá em Pequim se vê tanta altivez”. Certamente a “china” (mulher) da letra era a Ana Lúcia. Vale dizer que nas interpretações mais recentes Renato Teixeira modificou o verso para “Em Porto Alegre o Luiz Coronel...” É uma deferência, embora o andamento da letra fique um pouco torto. Mas, enfim, entre tantas realizações, músicas premiadas em festivais nativistas, diversos livros publicados, etc. e tal, Luiz Coronel tem ultimamente se notabilizado pelo seu projeto chamado “A Comédia Gaúcha”, onde com muita graça conta causos do anedotário gaúcho.

 Luiz Coronel e seu livro mais recente “Filé de Borboleta”

A Comédia Gaúcha começou como trilogia: “O Cavalo Verde”, “O Cachorro Azul” e “o Gato Escarlate”. Agora virou quinteto. O quarto volume é “Filé de Borboleta, o Don Juan de Bagé” e o quinto ainda está em processo de criação. Todos os seus livros são publicados pela Editora Mecenas. "Filé de borboleta" é expressão para designar um sujeito muito magro. Estes livros de causos do Luiz Coronel são interessantes não só pelas histórias em si mas principalmente pela forma com que são narradas, com todo o linguajar e expressões típicas do Rio Grande do Sul. Transcrevo abaixo um pequeno trecho do livro “Filé de Borboleta”:

Sentenciava o Capitão Caraguatá: “Quem não prevê o futuro dá de costados no muro”. A vida dá mais voltas do que cusco solto da corda e coleira... E nestes volteios alguém “dança sem querer dançar”. Voltando ao causo e abandonando os volteios, anunciado por bombos legüeros e bordoneos, com seu poncho noite escura por fora e cor de braseiro por dentro, se apresentou, com cartas de recomendação e comando das gravadoras da Capital, um candongueiro de muitas charlas, de nome Esmeraldino Barreto.

Para auxiliar o vivente que não esteja familiarizado com termos regionais, ao final do livro existe um Glossário. Afinal, ninguém precisa saber de antemão o que significam alpedo, haragano, guaiaca, repecho ou mesmo camoatim.

Quem se aventurar na leitura vai se divertir bastante.


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sábado, 5 de maio de 2012

A DIVERSIDADE DE ORIGEM NA SALA DE AULA E NOS PAMPAS (Porto Alegre – Parte VII)


Uma das grandes impressões de que até hoje lembro, após entrar para a faculdade, foi a da percepção da diversidade. Diversidade de origem. Cidades que são foco de migrações costumam ter a maior parte de sua população vinda de outras áreas. Isto foi muito claro no caso de Brasília, que só agora, com a divulgação dos dados do último censo, é que passou a ter uma predominância de população nativa. Porto Alegre dos anos 60 era a grande meca cultural do estado. A maioria de sua população provinha do interior, era até relativamente raro ter-se algum colega nascido na capital. Pelo menos na UFRGS era assim. Hoje, evidentemente, o fenômeno não existe mais. A cidade desenvolveu-se muito e, no caso do ensino superior, o interior do estado dispõe de outras universidades e instituições de ensino, não sendo mais necessário deslocar-se para a capital para dar prosseguimento aos estudos. Mas, enfim, minha turma reproduzia a própria diversidade do Rio Grande do Sul, cuja formação contou com a contribuição principal de alemães e italianos, como também a de diversos outros povos.
Na minha matéria sobre a recepção aos calouros, “Uma recepção de gala”, coloquei duas fotos coletivas com a assinatura das pessoas retratadas. Por ali já se pode ter uma idéia de como eram variadas as ascendências dos colegas. Na foto da fila de entrada já existem alguns exemplos: Vera Walker (desconheço a origem), Geraldo Müller (alemão), Vera Lucia Berndt (também alemã), e Aymara Stefani (creio que italiana, embora o primeiro nome remeta aos índios aymarás, da Bolívia, país com o qual seu pai tinha algum relacionamento comercial). Exemplos da última foto com assinaturas: Anita Brumer e Sara Brumer (irmãs, de ascendência judaica), Carmen Pritsch (desconheço), Valmiria Piccinini (italiana), Eliana Brenner e Susana Hanssen (desconheço a origem de ambas). Na fotografia do ônibus, da qual não tenho as assinaturas, há pelo menos uma colega com sobrenome que sugere dupla origem: Marilia Francisca Friederichs de Marsilac, que é a última que está em pé à direita, com um jeito meio de Audrey Hepburn; o seu sobrenome Marsilac sugere origem francesa, já o Friederichs não sei, embora pareça ser um caso de mescla européia. Lembro ainda de outros sobrenomes: Ani Schiphorst (não sei bem a origem), Berlindes Astrid Küchemann (alemã, este sobrenome aí é de casada, se estou bem lembrado seu sobrenome de solteira era Ricker) e Olga Derenji, de origem búlgara (acho que seu pai era nascido na Bulgária), o que sugere que a presidente Dilma Rousseff não é caso isolado.
Certamente tivemos ainda outros exemplos desta diversidade de origem. Infelizmente, os meus neurônios que cuidam dos registros de memória estão em pior situação do que o cenário descrito na poesia “The Waste Land”, de Thomas S. Eliot , isto é, a terra devastada.
Um recuerdo de Chile

Susana Gonçalves, que na foto do ônibus aparece como a primeira em pé, de óculos escuros e segurando uma bolsa enorme, era de excepcional sensibilidade. Ótima e gentil colega, adorava longos papos. No meio de algumas turbulências domésticas, participou de atividades de teatro, depois esteve um tempo no Chile, voltou, casou e parece que separou em seguida. Pelo menos assim me informaram. Um perfil, aliás, muito comum entre certa parcela da juventude, especialmente aquela ligada à vida cultural do bairro Bom Fim. Desde essa época não tive mais informações a seu respeito.
Pessoa de fino humor, dela guardo duas lembranças materiais. Uma foto 3x4, onde escreveu: “Pueril mandar uma foto, não? É simplesmente para me veres. Eu”.  A outra lembrança é o cartão reproduzido aí embaixo, que enviou do Chile:

A questão dos longos papos é interessante. Marina, minha colega, já havia feito esta observação no seu blog. Ainda que, no caso específico de nosso relacionamento, a situação tenha sido favorecida pelo fato de que fazíamos refeições no restaurante universitário e depois era preciso gastar um bom tempo até o início das aulas. Porém, mesmo em Bagé já era costume estas conversas intermináveis entre colegas. Onde o elemento potencializador era nossa participação nas atividades de política estudantil. Seguramente pela perspectiva utilitária dos tempos atuais este ideal de vida de filósofo grego peripatético parece uma imensa perda de tempo. Mas, eram, creio, características de uma geração. Minha geração, a de 1945, foi muito forte culturalmente. O ambiente universitário acabou favorecendo a cristalização de certas características: alta politização, uma bagagem de leitura imensa e participação em atividades culturais, basicamente cinema e teatro. Isto nos moldou e foi assim que seguimos vida afora.
A biblioteca

Foi um achado descobrir o acervo da Biblioteca Central da UFRGS. Meu interesse não era nem tanto pela parte dos livros, o que era óbvio, mas pela seção de revistas estrangeiras. Pelo menos na época a Biblioteca recebia muitas revistas estrangeiras, de todo gênero: arte, notícias, arquitetura e cultura. Minha paixão eram as revistas que traziam cartoons de artistas estrangeiros. Sempre gostei disto, provavelmente como parte da herança genética paterna. Meu pai desenhava muito bem e produzia quadros humorísticos para apresentação durante o carnaval de Lavras do Sul. Herdei apenas o interesse, não a habilidade no desenho. 
 
Destas consultas na biblioteca, duas charges me ficaram na mente. Na primeira, em dois quadros, freirinhas, que usavam hábito comprido, olhavam com admiração para as mocinhas na rua, com saias curtas; passa o tempo e o Vaticano libera o uso de roupas civis para as freirinhas, contentes elas colocam saias curtas e vão para a rua, quando então descobrem que a moda agora era as maxi-saias, tão longas quanto as que usavam na época dos hábitos. A segunda charge retratava uma biblioteca imensa e chiquérrima, onde o dono, de robe de chambre, subia nas costas do seu mordomo, que de quatro no chão fazia uma escadinha que permitia ao patrão pegar no alto da estante um exemplar de Das Capital, de Karl Marx. Aliás, ironia nem tão absurda assim. Era comum em diversas cidades brasileiras, e até mesmo em capitais como depois vim a ter conhecimento em Teresina, que alguns dos cidadãos mais ricos do lugar fossem comunistas.  Do mesmo jeito como eram anticlericais, maçons, etc. 
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Nos próximos capítulos novas historinhas.
-oO)(Oo-