domingo, 13 de novembro de 2011

ENQUANTO CORRIA A BARCA... (Porto Alegre – Parte IV)


Nas bancas de jornais

As principais revistas semanais da época não existem mais: O Cruzeiro e Manchete. A mais lida, O Cruzeiro, chegava a edições com tiragem imensa. Por ocasião da queda do governo de João Goulart preparou uma edição extraordinária:

 
Capa de O Cruzeiro de 10/04/1964

O interessante da edição é a aparente aposta da revista de que após a queda de João Goulart se seguiria uma nova liderança civil, apoiada pelos militares.  Como o levante militar se iniciou em Juiz de Fora, onde as tropas do General Olympio Mourão Filho começaram a se deslocar para o Rio de Janeiro, uma reportagem da Edição Extra de O Cruzeiro proclamava: “Articulador e iniciador do movimento que culminou com o afastamento do Presidente João Goulart, o Governador Magalhães Pinto foi aclamado em Minas como o grande herói da insurreição vitoriosa e calorosamente festejada em todo o Estado”. No entanto, se havia este tipo de expectativa, ela acabou não se confirmando.

Edição da Manchete de Abril de 1964

A Manchete, editada no Rio de Janeiro, também apostou numa liderança civil e estampou, em sua edição histórica, o Governador Carlos Lacerda, que, posteriormente, em 1968, teve seus direitos políticos cassados pelo regime militar.

Com a fuga de João Goulart, o Congresso Nacional declarou vaga a Presidência da República, assumindo interinamente Ranieri Mazzili, Presidente da Câmara dos Deputados, que logo teve que aceitar o poder de fato exercido por uma Junta Revolucionária composta pelos ministros da Guerra, da Marinha e da Aeronáutica. No dia 9 de abril a Junta edita um Ato Institucional que dava plenos poderes ao Presidente da República. Esperava-se que este Ato fosse único, assim ele não recebeu, a princípio, numeração. Com a futura edição de outros Atos, este passou a ser conhecido como AI-I. Em seguida, no dia 11 de abril, o Congresso Nacional elegia o General Humberto de Alencar Castelo Branco como novo Presidente do Brasil. A partir de então os militares ocuparam o poder por mais de 20 anos.
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Uma voz dissonante
Logo após a deposição de Jango, uma única voz passou a fazer críticas ao regime militar: Carlos Heitor Cony, em sua coluna no jornal “Correio da Manhã”. O jornal fez uma forte oposição ao governo e, embora tenha conseguido sobreviver até 1974, acabou literalmente asfixiado pela pressão do governo militar, que prendeu sua proprietária e os principais redatores, e pela falta de verbas publicitárias.
Cony não chegou a ser preso de imediato, pois, além de jamais ter sido comunista, era conhecida sua oposição a João Goulart. Suas crônicas resultaram no único canal de oxigênio em que os opositores ao regime respiravam. Luis Fernando Verissimo, na introdução à reedição do livro O Ato e o Fato, que reúne as crônicas de Cony, resume assim a situação:
Eu costumava ler o Cony regularmente no Correio. Me agradavam seu modo de escrever e seu humor(...) e de repente, depois do 1º abril, ali estava aquele cara dizendo tudo que a gente pensava sobre o golpe, sobre a prepotência militar e a pusilanimidade civil, com uma coragem tranqüila e uma aguda racionalidade que tornava o óbvio demolidor – e sem perder o estilo e a graça. Em pouco tempo aquele ato, ler o Cony, se tornou um exercício vital de oxigenação para muita gente, e sua coluna uma espécie de cidadela intelectual em que também resistíamos – mesmo que a resistência consistisse apenas em dizer “É isso mesmo!”, ou “Dá-lhe, Cony!”, a cada duas frases lidas. “Leu o Cony hoje?” passou a ser a senha de uma conspiração tácita de inconformados passivos, cujo lema silencioso seria “Pelo menos eles não estão conseguindo engambelar todo o mundo”.
Carlos Heitor Cony

Com o recrudescimento do regime e de suas crônicas, Cony foi preso por seis vezes. A última em 1968, quando voltava de um período de quase dois anos de auto-exílio. Autor de várias obras, e um de nossos melhores escritores, em março de 2000 foi eleito para a Academia Brasileira de Letras. Atualmente é cronista do jornal Folha de São Paulo. Caso o estimado leitor queira conhecer apenas um de seus livros, recomenda-se “Quase memória”, lançado originalmente pela Companhia das Letras.
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A revista Senhor
O ano de 1964, tão importante para a política nacional, começou com a publicação, em janeiro, do último número da revista SENHOR, que foi um marco cultural do nosso jornalismo. Costumava ler suas edições na Biblioteca Municipal de Bagé.

Capas da Revista Senhor

A SENHOR teve vida curta: durou entre 1959 e 1964. Neste período mudou de dono três vezes e publicou mais de 400 autores, a fina flor da nossa intelligentsia.  O projeto foi idealizado para ser uma publicação de alto nível, e começou como uma iniciativa da Editora Delta Larousse, que procurava apresentar um cartão de visita da qualidade de suas edições, em especial a enciclopédia. O idealizador do projeto foi Naum Sirotsky, jornalista gaúcho. Posteriormente o título da revista foi adquirido pela AGGS – Arte Gráficas Gomes de Souza, passando a ser editada por Odylo Costa Filho, e finalmente ficou sob o controle de Reynaldo Jardim e do publicitário Édeson Coelho. Cada uma das fases teve uma ênfase: política e economia na primeira, literatura na segunda e temas culturais na terceira. Em sua última fase, editada por Reynaldo Jardim, a preocupação com a realidade nacional estava ligada aos objetivos do ISEB e ao CPC da UNE, além dos grupos de vanguarda nas artes.

Alguns dos muitos grandes nomes que passaram pela SENHOR: Clarice Lispector, Fernando Sabino, Ferreira Gullar, Jorge Amado, Guimarães Rosa, Carlos Drummond de Andrade, Paulo Francis, Otto Maria Carpeaux, Paulo Mendes Campos, Nelson Rodrigues e Vinícius de Moraes. Um apanhado mais completo sobre sua trajetória encontra-se em Revista Senhor: Jornalismo cultural na imprensa brasileira, de Eliane Fátima Corti Basso, publicado na UNIrevista, Vol. 1, nº 3, julho de 2006. A autora é Doutora em Comunicação Social da Universidade Metodista de São Paulo, e a UNIrevista é publicada pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos, São Leopoldo, RS. O artigo transcreve depoimento de Naoum Sirotsky, que sintetiza o propósito editorial: “A revista não existia para promover ideologia alguma, visava divulgar boa literatura nacional e estrangeira, artes em geral, o que se pensava no Brasil e no mundo. Perseguimos tais objetivos sempre procurando aprimorar qualidade de texto e gráfica”.

Com alta qualidade gráfica e pagando salários acima dos valores praticados pelo mercado, a revista, apesar de sua grande repercussão, era cara e vendia pouco. Sua circulação acabou inviabilizando-se. Mas ficou como um grande exemplo de criatividade e inteligência da imprensa brasileira.
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 A música mais executada do ano
Segundo o levantamento da Top Hits, a música mais executada no Brasil, em 1964, foi “Datemi un martello”, com Rita Pavone.

Para relembrar:


Rita Pavone: Datemi un martello (1964)

Rita Pavone nasceu em 1945. Para atualizar a nostalgia, ela aos 63 anos, ainda estraçalhando:


 Rita Pavone: Pianissimo (2008)

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quarta-feira, 26 de outubro de 2011

UM ANO QUE CUSTOU A PASSAR (Porto Alegre – Parte III)

Tratar do ano de 1964 não é muito fácil. O ano que antecedeu minha entrada na universidade foi marcante na política brasileira. Aqui, ao lado das reminiscências pessoais, que constituem a espinha dorsal destes comentários, serão abordados de forma superficial alguns dos principais episódios do período. É provável que estes fatos não sejam do conhecimento vivencial de muitos dos leitores deste blog, que ou ainda não tinham nascido ou eram crianças quando dos acontecimentos. A intenção, porém, é dar uma idéia do contexto geral da época, sem nenhuma pretensão de ser exaustivo.

A queda do governo civil
Ainda trabalhava na ARCON quando caiu o governo João Goulart. Nos dias mais tensos, 31 de março e 1º de abril de 1964, trabalhamos com os portões fechados, pois havia rumores de que alguns sindicatos estavam forçando as empresas a suspender atividades. O ambiente estava pesado, naturalmente. Assisti ao último discurso de Brizola, na sacada da Prefeitura de Porto Alegre, dia 31 de março. Confirmada a queda do Governo, eu e outro colega resolvemos ir ao centro da cidade para ver o movimento. Chegamos em uma esquina da Borges de Medeiros e encontramos tudo deserto. Logo em seguida apareceu um soldado do exército, de fuzil na mão nos afastando dali: “olha o bolinho, olha o bolinho”. Bolinho era gíria para uma pequena aglomeração. Achamos prudente, portanto, dispersarmos nossa perigosa concentração de duas pessoas e fomos para casa.


Prefeitura de Porto Alegre

Brizola era idolatrado no RGS e sua fuga para não ser preso repercutiu muito. A população quer ver sangue, se este for dos seus mártires. A saída de cena, porém, foi o que possibilitou que anos depois Brizola voltasse e tornasse a ser político de influência. Meu pai era eleitor fiel de Brizola. Mesmo depois de ter passado dos 70 anos, quando não era mais obrigado a votar, ia às urnas apesar de todas as dificuldades, tinha um problema de circulação nas pernas que o acabou impedindo de andar, só para votar em Brizola. E depois me telefonava para saber se eu também já tinha votado nele.

Fui mesário de votação umas poucas vezes. É uma experiência muito interessante. A maioria das pessoas não tem idéia de como existem eleitores que votam com fé, com entusiasmo e fazem disto um evento de elevado patriotismo. Principalmente as pessoas mais velhas, que, como meu pai, poderiam ficar em casa mas fazem absoluta questão de exercerem o seu ato cívico com o maior orgulho.

Antecedentes da queda

Em março de 1964 o governo de João Goulart chegou ao seu paroxismo político. Tendo assumido a presidência, após a renúncia de Jânio Quadros, dentro do regime parlamentarista que reverteu em 1963, após plebiscito, Jango lutava para viabilizar politicamente sua plataforma das chamadas “reformas de base”, apresentadas no Plano Trienal elaborado por Celso Furtado: reforma agrária, reforma educacional (incluindo a reforma universitária, com abolição da cátedra vitalícia), reforma fiscal, reforma eleitoral, reforma urbana e reforma bancária. Seu último grande ato político foi o discurso de 13 de março na Central do Brasil, quando assinou decreto desapropriando para fins de reforma agrária as áreas rurais ao longo dos eixos rodoviários e ferroviários federais. E o seu último discurso foi na sede do Automóvel Clube do Brasil, em 30 de março, quando o golpe militar já estava articulado.

 Fragmento do discurso de Jango

Entre as propostas de Jango, duas, de menor peso político, eram bastante curiosas, as que tratavam do sapato popular e do tecido popular. Ambas mencionadas brevemente no discurso da Central do Brasil, mas já previstas desde 1962, pela Lei Delegada nº 4, de 26/09/62, que dispunha sobre a “intervenção no domínio econômico para assegurar a livre distribuição de produtos necessários ao consumo do povo”. A criação do sapato popular, que não era objeto de contestações ideológicas, chegou um pouco mais longe. Foi objeto do Decreto nº 53.586, de 21/02/64, que instituía no Ministério da Indústria e Comércio o Grupo Executivo da Indústria de Calçados (GECAL) e estipulava a criação de três diferentes tipos de sapatos populares: o “colegial”, diferenciado segundo os sexos, o calçado “popular”, para homens, e o calçado “esporte”, para senhoras. O GECAL chegou a apresentar o custo para cada tipo, sendo que as fábricas de calçados ficariam com liberdade para criar seus próprios modelos. O governo caiu antes que a medida entrasse em execução. A fabricação do tecido popular também ficou apenas nos estudos preliminares. Felizmente. Sabe-se lá o que poderia ter sido o tal tecido popular.

O grupo dos onze

Antes da queda do governo de João Goulart, e antevendo uma grande disputa pelo poder, inclusive entre os partidos de esquerda, Brizola montou seu próprio esquema de sobrevivência política: os “grupos dos onze”, à semelhança de um time de futebol, que  iriam compor um Exército Popular de Libertação, e seriam organizados em todas as instâncias possíveis, prontos para uma mobilização e enfrentamento extremos.
Uma romance sobre o assunto, de 1969

Um dos comensais na pensão onde almoçava era um jovem afrodescendente muito risonho, que trabalhava em um banco. Sumiu depois dos acontecimentos políticos. Passado um bom tempo, algo por uns dois meses, ou pouco mais, retornou ao nosso convívio. Acabou contando sua história: era “sargento do batalhão bancário” em seu estabelecimento. Estoura o levante militar e ele convoca o grupo dos onze para se reunir em um lugar já previamente escolhido. Todo mundo lá, à espera de armas, munições e instruções para a resistência. O tempo passa e nada dos recursos prometidos. Aí um dos onze diz “tenho que ir em casa deixar um dinheiro para minha mulher, ela não tem nem como comprar pão e leite para as crianças; vou lá e já volto”;  outro alegou que a sogra estava doente, iria dar uma rápida assistência, etc. e tal. Quando se deu conta, o bravo sargento estava sozinho. Achou muito prudente deixar tudo aquilo de lado e ir para Santa Catarina, onde passou um tempo escondido na casa de parentes. Ao ver as coisas serenarem, voltou e teve a sorte de ser readmitido.

A Coleção História Nova

Ainda nos primeiros meses de 1964 o Ministério da Educação e Cultura (MEC) lançou uma coleção de textos didáticos destinados aos professores de ensino secundário: a “História Nova”.



A coleção foi organizada pelo Instituto Superior de Estudos Brasileiros (Iseb), coordenada por Nelson Werneck Sodré, e pretendia reinterpretar a história brasileira com o uso do método marxista. A organização dos volumes e a redação dos textos foi feita com a colaboração de professores da Faculdade Nacional de Filosofia da Universidade do Brasil. A Campanha de Assistência ao Estudante do MEC foi a responsável pela divulgação da coleção. A previsão era editar dez títulos, mas somente os cinco primeiros foram distribuídos gratuitamente aos professores secundários. Com a tomada do poder pelos militares a edição foi suspensa. No ano seguinte, em 1965, houve uma segunda edição, patrocinada pela Editora Brasiliense, que pretendia condensar os dez volumes em apenas seis. Mas, apenas dois volumes foram republicados. Os exemplares foram apreendidos nas livrarias e na própria editora, e os autores foram perseguidos e presos.

Apesar de todas estas vicissitudes, o projeto da História Nova, no entendimento de Lúcia M. Paschoal Guimarães (O parecer do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro sobre a História Nova, s/d, mimeo): “representou um avanço na historiografia do livro didático. Um momento de ruptura, mesmo. A partir dali, as determinantes econômicas dos processos históricos seriam definitivamente incorporadas aos conteúdos dos compêndios escolares”.

Ouro para o Bem do Brasil
Esta história é impressionante. O governo militar encontrou o país com baixas reservas internacionais, cuja garantia era assegurada por depósitos em ouro. Era necessário descobrir um meio de conseguir “lastro” para reduzir nossa dívida externa. Surgiu a idéia de realizar-se uma campanha para angariar peças de ouro entre a população. A organização publicitária foi dos Diários Associados e operacionalizada pelo movimento dos “Legionários da Democracia”.  A idéia repetia iniciativa semelhante feita em São Paulo, em 1932, com o objetivo de angariar fundos para a chamada Revolução Constitucionalista.  
Foi realizada uma monumental campanha publicitária em todo o país. A coleta estendeu-se por todos os municípios brasileiros: nos postos de coleta eram recolhidos todos os tipos possíveis de peças de ouro, muitas delas heranças de família, como alianças, jóias, correntinhas, brincos, etc. As pessoas que doavam recebiam um anelzinho de latão com a inscrição “dei ouro para o bem do Brasil”.
 
Dei ouro para o bem do Brasil
Segundo a revista O Cruzeiro, só em São Paulo em duas semanas foram recolhidos mais de 400 quilos de ouro e cerca de meio bilhão de cruzeiros. Nunca se ficou conhecendo, ao certo, os resultados finais da campanha. Enfim, como até hoje somos uma nação de crédulos...
O Cruzeiro – 13 de junho de 1964

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sábado, 15 de outubro de 2011

TRABALHANDO ARDUAMENTE NA CIDADE GRANDE (Porto Alegre – Parte II)

 

Nossa memória está repleta de monumentos
que não foram esculpidos na pedra nem fundidos no bronze.
Cada um tem os seus, aquela coleção das coisas e dos fatos
memoráveis, do que foi suprimido dos cenários e da vida, mas que
permanece gravado na mente e nas lembranças.
José de Souza Martins

Cidades e cidades

Minha primeira impressão ao chegar na capital foi a sensação do anonimato. Minha cidade natal, Lavras, era pequenininha. Bagé uma cidade média, mas facilmente administrável. Porto Alegre era uma metrópole. Imensa, com gente aos borbotões em qualquer canto. Percebi que naquela multidão era um anônimo. Luis Fernando Verissimo falava no tipo “popular”. Dizia que nas reportagens de jornal quando em alguma fotografia aparecia alguém não identificado era tratado por “popular”: “um popular olhando a cena...” Mas descobri que aquele anonimato tinha uma certa vantagem, permitia o individualismo. Por exemplo, o sujeito podia se vestir de qualquer jeito que ninguém ligava a mínima. 

 

Mapa de Porto Alegre

 A vida em cidade pequena não é sempre idílica e romântica, como se costuma pensar. Agatha Christie, a grande escritora de livros policiais, dizia que era nas cidades pequenas que se cometiam os piores crimes. Normalmente cidade pequena é polarizada. Em Lavras, que me lembre, não havia, a rigor, maiores polarizações, apenas alguma rivalidade em função do grupo carnavalesco ou entre católicos e protestantes, mas só isto, portanto tudo amigável e numa boa. Em outras cidades, o problema é maior quando existem casos de polarização política entre a família de fulano e a família de beltrano. Então, só compra no mercadinho tal porque é de fulano, só abastece no posto de gasolina qual porque é de beltrano.

Além disto, em cidade pequena acontece uma superexposição. Para qualquer gesto do sujeito, até mesmo encostar em um poste, sempre tem alguém olhando, interpretando e dando opinião: “está bêbado”, “é um vagabundo”, “está escorando o poste para o poste não cair...” É impossível ser anônimo em cidade pequena. Por outro lado, “gente de fora” é sempre um estranho no sentido próprio da expressão. Uma ocasião, por conta de uma parada de ônibus um pouco mais prolongada do que o habitual, em uma cidadezinha no meio do trajeto entre Bagé e Pelotas, resolvi dar uma pequena caminhada pelas redondezas. No meio da tarde, as ruas estavam desertas. Cadê o pessoal? De repente, ao chegar em uma esquina, pressenti que alguém estava observando. Virei rapidamente, a tempo de ver várias pessoas me olhando pelas janelas. Que imediatamente se fecharam. 

Uma pequena urbe

Assim, se na cidade pequena há uma superexposição, na cidade grande o cidadão some no meio da multidão. Mas, se em um primeiro momento isto parece uma vantagem, como aos meus olhos de garoto tímido vindo do interior, a continuidade da inserção social leva à procura de mecanismos de integração com outras pessoas. Muitos anos adiante desta narrativa, indo a São Paulo e visitando Geraldo Müller, antigo colega de curso e que estava na ocasião realizando seu doutorado, ele contava algumas características da metrópole. Disse que uma menina lhe entregou em uma esquina um convite para uma festinha em sua casa, no bairro tal. Segundo explicou, como ela não possuía muitos relacionamentos pessoais diretos, achou por bem convidar ao acaso. Quem tivesse interesse iria, quem não tivesse não iria. É provável que a sua distribuição de convites não fosse tão aleatória assim. Passaria primeiramente pelo crivo da avaliação da outra pessoa, como naquele ditado popular que diz que “a primeira impressão é a que fica”. Depois, a identificação do bairro no convite já dava uma demonstração de seu nível social. Portanto, quem estivesse muito acima provavelmente não iria, e quem estivesse em um nível assemelhado provavelmente veria ali uma boa oportunidade para o estabelecimento de nova convívência.

Na atualidade, este convite ao acaso é utilizado como convocatória pela Internet para ações coletivas e é a base de relacionamentos virtuais em redes sociais. Porém, ter seis milhões de “amigos”, como no caso de Paulo Coelho, significa várias coisas, menos que seus seguidores possam ser considerados amigos no sentido etimológico.

Batalhando

Matriculei-me em curso noturno para ver se conseguia um jeito de ganhar algum. Trabalhei em dois escritórios, por curtos períodos. A atividade maior, que se prolongou durante o curso universitário, era em um cartório, onde não havia problema de horário e o ganho era por produção. Sem carteira assinada, óbvio. Nossa equipe de datilógrafos (homens e mulheres) transcrevia escrituras de compra e venda, cuja versão original era o registro manuscrito em uns livros imensos. Na primeira metade dos anos 60 ganhava alguma coisa tipo cinco cruzeiros por linha corrigida (talvez algo aproximado dos centavos atuais). Por linha corrigida, porque tinha uma funcionária cuja única função era identificar erros nas páginas datilografadas. Só após feitas as correções é que as linhas entravam para a nossa quota de ganho. Certa ocasião consegui datilografar uma escritura inteira, que sempre eram de várias páginas, sem um único erro. Pelo seu caráter especial, esta escritura ficou durante muito tempo exposta como exemplo de qualidade do trabalho dos funcionários. Mas, santo cartório! Foi, de certa forma, o que permitiu que este modesto blogueiro concluísse seu curso universitário. Não por todo o tempo, pois na reta final da faculdade passei a me manter com a aplicação de questionários das pesquisas de opinião.

Para datilografar com rapidez não se lê o texto no sentido cognitivo,
a tarefa se resume ao ato mecânico de visualizar o texto e reproduzi-lo

Dos escritórios, o mais interessante sob uma perspectiva antropológica foi o da ARCON, uma empresa que produzia aparelhos de ar condicionado. Suponho que os escritórios das fábricas inglesas pré-revolução industrial fossem daquele tipo. Embora fisicamente separado do chamado “chão de fábrica”, o escritório não tinha luxo nenhum. Fiquei lá os três meses considerados “de experiência”, portanto sem encargos sociais. Pedi para sair quando o período estava se encerrando senão teria que ser fichado, o que não me interessava.  O chefe do escritório era ranheta, mas, no fundo, muito no fundo, lá por profundidades do pré-sal, não era mau sujeito. Vivia estressado: “este escritório vai parar por falta de clips” (ah! bons tempos...). Outra feita, quando estava com a macaca, me chamou: - “Há quanto tempo estamos sem enviar correspondência para nosso representante comercial em São Paulo?” Disse o período. – “E por que não escrevemos?” Informei que não havia nenhum assunto comercial pendente. Não convenci. - “Mas temos que escrever. Ele precisa saber que estamos vivos”. Infelizmente não lembro em que termos redigi uma correspondência para informar que estávamos vivos.


Apesar de a questão ter sido colocada daquele jeito, não é necessário ler nenhum manual de administração para encontrar uma certa lógica. Considerada a distância entre as duas cidades, sem nada do que hoje se conhece por tempo real, vá que o representante em São Paulo recebesse notícias mais constantes de algum concorrente mais vivo em todos os sentidos.

Pois isto. Por enquanto.
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sábado, 1 de outubro de 2011

PARALELO 30 BRASILEIRO (Porto Alegre - Parte I)

(Paralelo 30º S é a marca geodésica que corresponde a 30 graus sul no plano equatorial; é a latitude de Porto Alegre)

O ano da minha Idade Média

Fui para Porto Alegre em 1964, inicialmente para cursar o 3º ano do científico no Colégio Estadual “Júlio de Castilhos”, mais conhecido por “Julinho”. Antes, duas providências de ordem cartorial: tirei em Bagé a minha primeira identidade, confeccionada em uma espécie de caderninho, e em Lavras compareci ao alistamento militar, do qual foi dispensado por excesso de contingente, graças a providenciais contatos de meu pai. Pois sempre que lembrava dos primeiros tempos em Porto Alegre, tinha a idéia de que tinha sido uma espécie de Idade Média, um período algo sombrio. Basicamente por conta de dois fatores associados, ambos ligados ao Julinho: meu último ano em Bagé tinha sido de elevada agitação juvenil, agora estava matriculado em uma turma do curso noturno, onde eu era um dos mais novos e a grande maioria já trabalhava, portanto gente séria que buscava um rumo em sua vida; além disto, foi minha primeira (e única) experiência em curso noturno, em um colégio que na minha lembrança não era excepcionalmente iluminado. Tinha, assim, a lembrança de ter sido um período escuro.


No entanto, quando a gente começa a escarafunchar a memória, vê que não foi só isso, que muita coisa aconteceu. Assim também na Idade Média propriamente dita, que transcende a noção de ter sido apenas um período de pobreza e estagnação. O seu resgate cultural deve-se grandemente a Umberto Eco (parto do princípio que todo mundo conhece e sabe de quem se trata; senão, Google nele). Além de suas obras de ficção com enfoque medieval, como O Nome da Rosa, Umberto Eco ilumina o período em Arte e Beleza da Estética Medieval, onde mostra como o período pavimentou a passagem que leva ao Renascimento.

A nova vida

Estabeleci-me em Porto Alegre em uma casa de cômodos localizada na Rua Felipe Camarão, Bairro do Bom Fim. O bairro era predominantemente de judeus, assim como os proprietários da casa, um casal sem filhos, morando com a nora, e que, para reforço do orçamento, alugavam quartos. O terreno era comprido, onde foram construídos quartos de dois a dois, com um banheiro comum. Fiquei no quarto mais barato, de quatro camas. No quarto contíguo apenas duas camas. Em compensação o banheiro ficava no nosso quarto. Durante os meus sete anos de Porto Alegre fiquei neste mesmo lugar. Atualmente no local existe um prédio de apartamentos. O adensamento demográfico e o avanço imobiliário são inexoráveis. 

Rua Felipe Camarão

Alugávamos o pouso, as refeições ficavam por conta de cada um, naturalmente alhures. Todos éramos estudantes, com uma honrosa exceção, um colega que “se virava”, trabalhava como rádio-técnico e quantos outros expedientes pudesse, muito simpático e cheio de malandragens, razão pela qual ganhou de nós o apelido de “Picardia”.

Pois Picardia, com a finalidade de mostrar pontos interessantes da capital, me leva para conhecer o bairro Boa Vista, no final da avenida Carlos Gomes. Um bairro muito parecido com as cidades americanas que a gente vê no cinema: fora do burburinho central, relativamente pequeno, belissimamente arborizado e com casas espetaculares, na época com imensos jardins sem cercas em sua frente (os bairros de habitações individuais de Brasília, Lagos Sul e Norte, correspondem a este padrão). Fiquei encantado particularmente com a rua Raimundo Correa, por ser parte do meu nome. A homenagem era ao grande poeta parnasiano Raimundo da Mota de Azevedo Correia, nascido a bordo do navio São Luis, na baía de Mogúncia, ao largo do Maranhão. O bairro Boa Vista ficava em posição privilegiada e elevada, tal como a classe alta européia, que ocupa as posições superiores dos terrenos, e ao contrário do que acontece no Rio de Janeiro. Na parte de baixo, separadas pela avenida onde passava o ônibus, uma miríade de construções populares (uma favela, termo na época não utilizado no RGS). Diz Picardia: - “Este pessoal aí é todo mundo comunista”. Achei curioso: - “Mas por quê?”. E ele: - “Ora, o sujeito vive numa miséria destas, acorda, olha para cima e vê todo este luxo... só pode virar comunista”.

Rua Raimundo Correa

Outra do Picardia: aparece com uma vitrola que tinha consertado e um disco de música clássica. Colocaria para rodar quando fôssemos dormir, assim o sono viria embalado por uma música suave. Tudo combinado, luz apagada e o disco começa a tocar. Era a primeira vez em que todos nós escutávamos o Bolero, de Ravel. Como é sabido, o Bolero tem um tema que vai se repetindo várias vezes, sempre em um crescendo progressivo, cada vez com maior número de instrumentos até seu final literalmente estrondoso. Uma obra belíssima, mas inadequada ao que esperávamos, uma completa reversão de expectativas: quando terminou, ao invés de já estarmos na companhia de Morfeu, o deus grego dos sonhos, estávamos meio espantados, de olhos esbugalhados. Como tudo tem seu lado positivo, iniciávamos ali nossa bagagem cultural de música clássica. Bolero ficaria inesquecível, claro que depois do episódio por suas qualidades substantivas.

O bairro do Bom Fim

Vida tranqüila, o Bom Fim tinha igreja católica e sinagoga. Também um Círculo Social Israelita, aberto à população não-judia para algumas programações. Ali assisti a peças de teatro, conferências, debates culturais.

Não estava mais em Porto Alegre quando o Bom Fim virou animado “point”, com grande número de barzinhos freqüentados pela juventude. O bairro possui muitas referências culturais.
  •  Moacyr Scliar (1937-2011), um grandes escritores brasileiros, nasceu no Bom Fim, onde ambientou seu primeiro romande “A guerra no Bom Fim”, ficção sobre os tempos da Segunda Guerra Mundial. Moacyr Scliar era médico sanitarista e produziu uma obra extensa, boa parte referente à cultura judia. Em 2003 foi eleito para a Academia Brasileira de Letras.
  •  Na música, a “tchurma do Bonfim”, em “Deu pra Ti”, de Kleiton e Kledir:


  • O bairro também ficou conhecido nacionalmente pelo personagem “Magro do Bonfa”, de Adão Nascimento, conhecido por sua participação na Escolinha do Professor Raimundo. A expressão “magro do Bonfa” causava alguma estranheza porque o humorista não era magro. É gíria, originalmente para designar os frequentadores dos barzinhos da Oswaldo Aranha, reduto da boemia: “magro do bonfa”, “magrinha do bonfa”. No comentário de Emílio Pacheco, “Nos anos 70, ‘magro’ ou ‘magrinho’ era como ‘bixo’ ou ‘cara’. ‘E aí, magro?’  Mas também se usava ‘magrinho’ para definir um tipo característico, o típico jovem modernoso, pra frente, malandro, falador de gírias, usando roupas transadíssimas”. Como este blog é lido em conventos, a explicação é suficiente. 

O Magro do Bonfa na Escolinha do Professor Raimundo
  • Existe até um blog dedicado ao bairro: “Nosso Bom Fim: o melhor e o pior sobre o bairro Bom Fim e arredores”: http://nossobomfim.blogspot.com/ .

Em 2010 a UFRGS organizou uma exposição sobre o Bom Fim com o título “Um Bairro, Muitas Histórias”. Em texto publicado na Zero Hora (provavelmente um de seus últimos), Moacyr Scliar encerra seu depoimento assim resumindo: “O Bom Fim: cadinho de culturas, sonhos, de esperanças, de idéias, de talentos”. No meu tempo participei destes sonhos e destas esperanças.

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sábado, 24 de setembro de 2011

TEORIAS SELVAGENS (Bagé – Parte VI)


(“Teorías Salvajes”, livro do qual foi extraída a epígrafe abaixo. Buenos Aires: Editorial Entropía, 2008.)


Un hombre con una teoría es alguien que tiene algo por gritar.
Pola Oloixarac


Botando os pingos nos iis

Mesmo que o distinto leitor não tenha um interesse especial por questões relacionadas ao movimento estudantil, talvez até por ter vivido em outros tempos, quando estas coisas já eram história, suponho que as informações que se seguem tenham sua utilidade, quanto mais não seja por relembrarem um momento significativo da vida política brasileira.


O CPC da UNE

O começo dos anos 60, do ponto de vista dos movimentos estudantis, foi marcado pela atuação do CPC da UNE – Centro Popular de Cultura. Criado em 1962, de acordo com a descrição de Manoel T. Berlinck “o CPC era o órgão cultural da União Nacional dos Estudantes, regendo-se com autonomia administrativa e financeira. A sua direção era eleita (e poderia ser dissolvida) pela Assembléia Geral de seus membros e a filiação ao CPC era feita em bases individuais. Nesse sentido, pode-se dizer que o ‘CPC da UNE’ nunca pertenceu À União Nacional dos Estudantes: era uma organização administrativa e financeiramente autônoma. Porém, ao mesmo tempo, era o órgão cultural da UNE”.

Integrado por intelectuais de diversas áreas, o CPC desenvolveu atividades de teatro, cinema, música e literatura. A principal orientação do CPC era produzir a chamada “arte popular revolucionária”. Seu documento-base, nunca publicado, é o “Anteprojeto do Manifesto do Centro Popular de Cultura”, de março de 1962, que pode ser encontrado no livro “Impressões de viagem: CPC, vanguarda e desbunde: 1960/70”, de Heloisa Buarque de Hollanda. Todavia, dois outros trabalhos explicitaram seu referencial teórico:  “A questão da cultura popular”, de Carlos Estevam Martins, e “A cultura popular posta em questão”, de Ferreira Gullar; ambos, mais Carlos (Cacá) Diegues, foram os diretores do CPC em sua curta trajetória.
 
Integrantes do CPC da UNE, encenando uma peça de teatro na sede do sindicato dos metalúrgicos (RJ), onde estava em andamento a Revolta dos Marinheiros. 25/26 de março 1964. (CPDOC/FGV/ R47 Cruzeiro, vol.36, n.28, abr 1964)

Um exemplo de como a atuação do CPC da UNE foi marcante é que o único filme que produziu, Cinco vezes favela, de 1962, considerado um dos marcos do Cinema Novo Brasileiro, teve uma refilmagem recente, sob a coordenação geral de Cacá Diegues, apresentada em agosto de 2011 com o nome de Cinco Vezes Favela, Agora por Nós Mesmos.

Embora uma consulta ao Google apresente muitas referências a respeito, para quem quiser consultar apenas uma fonte, um apanhado geral e sucinto do que foi o CPC encontra-se em “CPC da UNE”: http://forumeja.org.br/book/export/html/1720. No site é possível fazer o download na íntegra do livro de Manoel T. Berlinck, citado acima, bem como dos outros trabalhos mencionados, além do acesso a depoimentos gravados e diversas informações a respeito de obras sobre e do CPC, incluindo-se a publicação Violão de Rua e o disco O Povo Canta. Estas duas últimas referências foram as atividades com as quais o movimento estudantil do interior teve maior aproximação.

Violão de Rua


A pequena série de três volumes do Violão de Rua foi uma derivação da série maior Cadernos do Povo Brasileiro, editada pela Civilização Brasileira, de Enio Silveira. Quem tiver interesse em conhecer melhor esta história, leia a tese de doutorado de Angélica Lovatto: “Os Cadernos do povo brasileiro e o debate nacionalista nos anos 1960: um projeto de revolução brasileira”. Disponível para download no site Domínio Público do MEC:  

A coleção Cadernos do Povo Brasileiro consistiu de 28 volumes, incluídos os três do Violâo de Rua, e foi publicada no período de 1961-64. Sua interrupção, quase que desnecessário dizer, foi por conta do governo militar. Os Cadernos possuíam linguagem simples e destinavam-se à população em geral. Estima-se que a tiragem total de seus exemplares tenha ultrapassado a marca de um milhão de exemplares. Estas publicações destinavam-se a contribuir para o processo de transformação da sociedade brasileira por meio da conscientização da massa popular. A grande propagação da coleção deveu-se ao empenho do CPC da UNE em sua divulgação.

A publicação do Violão de Rua era um produto da chamada arte engajada. Sua Nota Introdutória, redigida por Moacyr Félix, explicava: “Guiada por um critério acentuadamente político-social, e que não exclue a validade de outros critérios achados nos caminhos da poesia e da arte, a publicação desta série de poemas visa apenas realizar a apresentação de alguns esforços e de algumas tentativas aptas a provocar e estimular um clima propício ao aparecimento ou ao renascimento de uma literatura que responda ao seu tempo, universalizando-se fatalmente, em suas criações maiores, por não se querer mais de costas voltadas para a realidade e para a vida”.

Grandes nomes da poesia brasileira participaram do Violão de Rua: Affonso Romano de Sant’Anna, Ferreira Gullar, Geir Campos, Joaquim Cardozo, Moacir Felix e Reynaldo Jardim, entre outros. Abaixo, dois pequenos fragmentos, ambos do volume II:

COME E DORME
(...)
O rico come e dorme.
O rico dorme e come.
Come a comida do pobre.
O pobre dorme com fome.

A fome come o pobre
porque a fome não dorme.
O rico diz: foi Deus.
Depois, com e dorme

O sono cristão: enorme.

Felix de Atahyde


QUE FAZER?
(...)
A revolução floresce
na minha, na tua mão,
que nada há mais que a detenha
- nem polícia nem bloqueio
nem bomba nem “Lacerdão” –
que ela assobia no vento
e marcha na multidão,
ilumina o firmamento,
gira na constelação

- porque já foi deflagrada
no meu, no teu coração.

Ferreira Gullar


Senzala Branca

No interior do Rio Grande do Sul o movimento estudantil estava distante das iniciativas da Capital, sintonizadas com as da UNE.  Além do mais, a temática nordestina, histórias sobre grileiros, favelados, tudo isto estava um pouco distantes da vida cotidiana e da cultura do sul. Neste período, a poesia gaúcha ficou ao largo da possibilidade de atrelamento ideológico. Pode-se considerar uma exceção o poeta Lauro Rodrigues, que, além de jornalista e radialista, foi vereador em Porto alegre e deputado federal pelo RGS. Em 1958 ele lançou sua obra mais conhecida, Senzala Branca, onde surgiam aqui e ali algumas tintas sociais. A principal destas poesias foi a que deu nome ao livro: Senzala Branca.
   

O tema central de Senzala Branca trata da situação de pobreza galopante (perdão, leitores) tanto do Rio Grande quanto do Brasil:  “A guerra é de doutrinas... Vem! Desperta / que os dias do porvir serão vividos... / Pois, pressinto na fome de meu filho / que um vulcão de revolta aclara o trilho / por onde segue a procissão dos pais... // Mas não tarda que a aurora do futuro / tinja de escarlate o céu escuro / dos párias desta estância abandonada... // E, então, o marco de uma nova era, / surgirá num ermo da tapera / para que o povo todo num só grito, / possa bradar da Terra ao Infinito: ALELUIA!... ALELUIA!... ALELUIA!...” Na época, eu sabia esta poesia inteira de cor, que não é tão pequenininha assim. Até hoje sei vários fragmentos. E isto que não era daquelas que a gente decorava só para impressionar mulher... Mas, Lauro Rodrigues também era muito bom nas poesias nativistas.

O Povo Canta

Meu xodó entre os produtos do CPC era o jogral da Canção do Subdesenvolvido, de Carlos Lyra e Francisco de Assis, faixa principal do disco O Povo Canta, um vinil compacto de 33 rpm. Escute abaixo.

CPC da UNE – “Canção do Subdesenvolvido”

No meio do caminho tinha uma pedra...

Com exceção de algumas expectativas e tentativas, como ir para o seminário ou ingressar no Colégio Militar, não tive qualquer pressão da família sobre a escolha do curso superior. Mas, do meu mato não saia coelho, estava em uma total e absoluta indefinição sobre o futuro profissional. Durante o curso científico realizado em Bagé, a professora de Matemática, Silvinha, me perguntou umas três vezes que carreira eu iria seguir, pois, segundo dizia, eu era o único na turma com este tipo de dúvida. Preocupado, procurei a Profa. Terezinha, de História, em busca de um conselho. Após a consideração de diversas conjecturas e respectivas refutações voltamos à estaca zero. Resultou sendo minha única tentativa formal. A participação no movimento estudantil, e a consideração a sério de suas bandeiras de justiça social, acabaram sendo os fatores determinantes para a minha decisão. Coisa de missionário, certamente com a anuência do Altíssimo.

Acabei escolhendo a carreira por meio de um livro: “As vocações e como descobri-las”, do psicólogo Emilio Mira y López, o qual sugeria que as pessoas interessadas no conhecimento dos processos sociais e que desejassem colaborar para a solução dos grandes problemas do país deviam realizar um curso de Sociologia, o que no catálogo da UFRGS correspondia a Ciências Sociais. Feita a escolha, nem sempre era muito fácil justificá-la. Aliás, no meio em que vivia nunca era fácil. As pessoas normais, com bom senso, estavam acostumadas a considerar somente as carreiras tradicionais, como engenharia, medicina, e manifestavam alguma estranheza com o que achavam um delírio. Em Lavras, um colega me perguntou para o que servia o curso. Já meio cansado com longas explicações, resolvi encurtar o caminho e disse que o curso me habilitaria a ser colunista social. O colega me olhou com um jeito meio apalermado e só conseguiu fazer um curto comentário: “ah...”

Enfim, fui para Porto Alegre realizar o último ano do curso científico com pelo menos a certeza sobre o tipo de vestibular que iria prestar.


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sábado, 17 de setembro de 2011

MOCIDADE SE ESPALHA MUITO (Bagé – Parte V)

(O título é retirado de “O vau da vida”, de Ariosto Augusto de Oliveira. São Paulo: Nankin Editora, 2004.)


Política estudantil
 
Do mesmo modo como praticamente todo mundo de minha geração, também participei do movimento estudantil. Para os eventuais leitores interessados em sangue, prisões, torturas, etc., cabe alertar que estas coisas somente vieram a acontecer alguns anos depois. Além disto, minha participação na época foi muito periférica, sem nenhum detalhe escabroso. Ao contrário, talvez os relatos aqui feitos estejam mais adequados para uma coletânea crítica sobre o Pequeno Príncipe. No entanto, para quem quiser aprofundar-se no assunto sugiro consultar a extensa bibliografia indicada no site Memória do Movimento Estudantil: 

Um relato recente e muito interessante de quem teve participação mais ativa é o texto “Rakudianai”, de Persio Arida, publicado na Revista Piauí nº 55, abril de 2011.

A União Bageense dos Estudantes Secundários – UBES, estava ligada à União Gaúcha dos Estudantes Secundários – UGES, esta, por sua vez, ligada à outra UBES – União Brasileira de Estudantes Secundários. As principais orientações, contudo, vinham da entidade que  congregava os universitários: a União Nacional dos Estudantes – UNE.


O movimento estudantil sempre serviu de trampolim político. Para dar alguns exemplos atuais: José Serra, Aldo Rebelo e Lindberg Farias foram dirigentes da UNE. A carteirinha aí de cima foi assinada por Aluizio Paraguasssu Ferreira, presidente da UGES. Posteriormente, Aluizio Paraguassu foi eleito deputado estadual no RGS, pelo MDB, na legislatura de 1971-1975, e deputado federal (MDB/PDT) nas legislaturas de 1975-1979 e 1979-1983.

A participação nos grêmios e associações estudantis foi muito útil, não só para mim como também para vários colegas. Como estávamos longe da família, a experiência representou a complementação de um processo educativo para as coisas da vida. Aprendemos bastante: como administrar os recursos das carteirinhas estudantis, como tratar de questões como aluguel da sede e seu pagamento, etc. e tal. Mais adiante aprendi coisas até inesperadas: como ajeitar-se nas cadeiras para agüentar as intermináveis reuniões e congressos (muito embora a sugestão fosse daquelas de enfartar ortopedista) e como descansar o corpo quando necessário acompanhar em pé cerimônias longas, a exemplo de discursos e do hasteamento da bandeira nacional. Este último macete aprendi com o filho de um ex-prefeito, que o aprendeu com seu pai.

Na calada da noite

Naquele entusiasmo juvenil resolvi participar de uma panfletagem clandestina. Colar alguns cartazes. Sobre o quê, não lembro. Provavelmente alguma campanha para eleição no grêmio estudantil. Eu e outro colega recebemos um curso intensivo de uns 10 minutos. Basicamente duas recomendações: não colar apenas um cartaz no poste, mas vários; no caso de faixa estendida ao ar livre, colocar alguns furos para favorecer a passagem do vento, caso contrário o vento poderia embolsar e rasgar a faixa.

Na noite escolhida lá fomos nós subindo a Av. Sete de Setembro, a principal de Bagé. Eu estava com um terno de risca de giz. Talvez fosse o mais escuro de que dispunha, talvez a noite estivesse meio fria, talvez pelas duas razões. Além do mais, por não ser um figurino típico de panfletário não deveria despertar suspeitas. Meu colega levava os cartazes e eu uma lata tampada cheia de cola. Primeiro tivemos a surpresa de ter termos escolhido a hora errada. Embora de noite, não estávamos na calada da noite, mas à luz da iluminação pública, e o que era para ser um deslocamento subreptício estava sendo feito no meio de muita gente, porque coincidia com a hora de saída dos cursos noturnos. Depois, percebi que muitos dos que passavam olhavam para mim meio espantados. Lá pelas tantas descobri o por quê. A tampa da lata estava meio aberta e a cola escorria pela perna da minha calça, chamando atenção pelo contraste: cola branca em roupa escura. Resumindo: minha primeira e última tentativa de panfletagem clandestina foi um fiasco completo.

A galinha Filomena

Como ninguém é de ferro, estávamos na sede da UBES jogando conversa fora quando passa um caminhão e deixa cair uma galinha. Na mesma hora fomos atrás e conseguimos pegá-la. O senhorio do prédio da entidade concordou em cuidar dela. Por votação, o galináceo recebeu o nome de Filomena. Compramos milho durante duas semanas, para que ganhasse peso. Após o que ela se converteu em uma divertida galinhada para nossa pequena diretoria.

A participação em entidades de representação estudantil



A participação na política estudantil era incentivada pela Igreja Católica, em especial por meio da JEC – Juventude Estudantil Católica e da JUC – Juventude Universitária Católica. Assim, era quase mandatório circularmos com a encíclica Mater et Magister, de João XXIII, debaixo do braço, cujo subtítulo era “A evolução da questão social à luz da doutrina cristã”. A Mater et Magister foi lançada em 1961. O importante não era, obviamente, ter lido a encíclica, mas tê-la como objeto físico. Inclusive por ser o pretexto para as longas conversas intelectualizadas com as colegas mais engajadas. Conversas intelectualizadas e frequentemente cansativas. No começo da década de 60 era comum que o rapaz fosse recebido do lado de fora da casa e que ali ficasse em papos intermináveis. Em pé. Não era, porém, uma regra inflexível. Um dos convites que recebia para entrar e sentar era de uma colega que não queria saber de política, a filha de um grande fazendeiro, que morava em um palacete. Era uma nativista, antes que isto virasse moda, e me tratava por um “tche” tão vigoroso que me deixava até meio assustado.


Os encontros das associações

Como era próprio do relacionamento entre as entidades estudantis, participávamos de alguns encontros fora da cidade sede, regionais e estaduais. Nos encontros regionais tive uma boa experiência e outra nem tanto assim. A boa foi um encontro realizado na cidade do Rio Grande, onde a associação local recebeu os participantes com pompa e circunstância. O ponto mais alto da visita, considerado pelo lado das satisfações vitais de qualquer indivíduo, foi um excepcional almoço oferecido pela Pescal, uma empresa pioneira no congelamento de pescados. O cardápio era uma demonstração das imensas possibilidades culinárias dos frutos do mar e fazia parte das atividades de marketing da empresa. Curiosidade: na época já conhecia o termo marketing, que, segundo o Houaiss, foi justamente no início dos anos 60 que tornou-se de uso corrente no Brasil; vem do latim "mercatus", que significado negócio, mercado.  

O encontro menos glorioso foi em Santana do Livramento. Como as entidades estudantis locais não dispunham de telefone, a comunicação entre elas era feita por telegrama. De modo que na véspera da data aprazada nossa delegação partiu de trem para Livramento. Esta variante da linha férrea foi posteriormente desativada no trecho entre Livramento e Dom Pedrito.  Porém, ao chegarmos em Livramento fomos informados de que o encontro tinha sido cancelado. O telegrama comunicando a suspensão do encontro, como não era de se estranhar muito naqueles tempos, chegou depois de nossa partida. O jeito foi voltarmos no trem seguinte. Apesar do transtorno, entendemos a situação. Não era fácil promover um encontro que congregasse muita gente. Além da questão das refeições, era necessário prover dormitórios e colchões, estes últimos quase sempre solicitados junto a quartéis. 

  

As canções revolucionárias e a inocência

Mesmo sem estarmos vivenciando os anos de chumbo, algumas nuvens negras já começavam a surgir nos céus. Naquele entusiasmo juvenil, nem tudo era considerado na devida proporção. Assim, por exemplo, jovens risonhas e simpáticas cantavam com o maior entusiasmo um versinho revolucionário: “sabãozinho, sabãozinho / de burguês gordinho / toda vil reação / vai virar sabão”. Seguramente a melodia fácil e o apoio do grupo mascaravam o sentido real dos versos, que ao pé da letra não tinham nenhuma inocência.

Outra comprovação da singeleza cordial desta época está estampada na foto abaixo, que reproduz frente e verso da pasta do XVI Congresso Estadual dos Estudantes de Grau Médio do Rio Grande do Sul, realizado no Alegrete, em julho de 1962.



Tal qual álbum das meninas, era costume deixar-se uma mensagem para o colega. Minha pasta, como pode ser visto, ficou repleta de dedicatórias, manifestações típicas de corações juvenis para os quais o mundo inteiro ainda estava por ser conquistado. Algumas das frases e dedicatórias legíveis, conservadas graças ao fato de terem sido redigidas com caneta tinteiro:

  • “Quando estiveres longe lembra-te que tens uma amiga em Alegrete” (Vivalda Ferreira)
  • “Deixo uma recordação da amiga e congressista” (Leila Maria Teixeira – Lavras do Sul)
  • “Ao Raimundo deixo minha amizade e recordação do XVI Congresso” (Daguimar Monteiro – Lavras do Sul)
  • “Aqui fica uma recordação de um velho amigo e companheiro de bancada e diretoria, que esta ficará gravada para sempre” (Gilberto Lima)
  • “Ao colega e amigo Raimundo uma recordação do Congresso de Alegrete” (José Artur Vivian)
  • “Raimundo, os piores momentos são aqueles que nós duvidamos de nós mesmos” (Madalena Moreira)
  • “És o que és” (Vera Maria Ramires- Bagé)
  • “Raimundo, luta pela tua autenticidade, és um tijolo insubstituível das paredes da nossa sociedade” (Girley)
  • “Uma recordação para que o amigo sempre recorde-se da turma mais unida do Congresso – Jaguarão, Bagé, Arroio Grande” (Verdi)

Outras assinaturas na pasta, que foi possível identificar: Aluizio Paraguassú Ferreira (Presidente da UGES), Carlitos Oliveira (Presidente da UBES), Marilia Loguércio (Bagé), José Cláudio da Silva (Arroio Grande), Ciro Loureiro Rocha (Alegrete), Astolfa Conceição Lages (Arroio Grande), Gilberto Nunes (Jaguarão), Léa Silva (Bagé), Rosa Maria Carraro (Garibaldi), Luiz Moreira Gonçalves (Jaguarão), Jaime Primo Dias (Jaguarão), Lelande (Alegrete), Mário Teixeira (Lavras do Sul), Madalena Niederauer Dias (Alegrete), João Pedro Vidal (Herval do Sul), Dilza Terezinha Goulart Lopes (Alegrete) e Estivalet Brandolf (Alegrete).

Por onde andará este povo?  Um ou outro já terá ido ao encontro do Criador? Será que, por estes milagres que a Internet propicia, alguém terá a oportunidade de ler estas notas e de se reconhecer nestas lembranças?

Pois isto!

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