terça-feira, 7 de abril de 2009

VINTE E DOIS CONTOS ESCOLHIDOS

Lauro Junkes*

Poucas atividades ou funções apresentam um caráter tão apaixonante como as de artista e escritor. Talvez por isso mesmo o artista criador necessariamente respira, vive, rumina sua obra quase que sem descanso, sem conformar-se com sua expressão presente, sempre em busca de renovação. Sob esse aspecto, podemos incluir o nome de Emanuel Medeiros Vieira entre os artistas autênticos, pois a criação literária constituiu atração obsessiva em toda sua existência, inclusive com tão freqüentes referências sobre o ato de escrever e a busca de tornar-se escritor. A amostragem contida no volume Vinte e Dois Contos Escolhidos (Brasília: LGE, 2007) evidencia como, na sua evolução por muitas décadas, o escritor, mesmo entre dúvidas e incertezas, perseguia o ideal de escritor.

Nos seus relatos de ficção, Emanuel M. Vieira nunca se preocupou com amenizar as situações existenciais ou fornecer ao leitor uma leitura amena, romantizada. Desde “Os Homens Doentes” (1967), situando-se dentro de um sanatório, o narrador coletivo (nós) pondera, em tom lento, pesado, como é a vida, sem sentido nem esperança, dos pacientes, doentes/loucos. O único destaque maior é o do rapaz que visita o pai, que resmunga e discute. Parece insinuar-se, quase inevitável, uma projeção do próprio autor. Em “Velas” (1968), igualmente tema e tom são pesados, com o narrador na rotina terrível – “E o fim do mês e o fim do ano”? – naquele ambiente envelhecido, estagnado. Com freqüência focaliza Dona Francisca e suas crises de asma, e com isso “recordei-me de meu tio”, manchado de sangue: “havia cortado a garganta”. Em tudo, o ambiente lúgubre das velas.

Os impetuosos arroubos do autor se confrontam, permanentemente, com o tema do amor, nunca de lirismo harmonioso, porém permanente paixão e desafio. O conto-título do livro “A Expiação de Jeruza” (1969) detém bela arquitetado nas sobreposições de imagens: Jeruza (felicidade x desordem, morte) e mãe, Jeruza e América, perpassando tudo um inextinguível anseio de vitalidade, de amor, sentimento de fusão, opondo-se aos ódios de superioridade: “não sabia que nunca mais haveria felicidade, estamos para a dor”. “Garopaba, meu amor” (1971) registra outro expressivo trabalho de paralelismos e fusões: Garopaba e Marta, procuradas – a primeira alterada pelo turismo e a segunda não existindo mais. Paira sobre tudo o ar de semana santa, encenando-se a Paixão de Cristo, que enseja diversas correspondências com a situação atual. “No Mercado” registra uma cena viva, direta, dramática, crua e brutal. O narrador vai ao encontro de Maria, que saía de lanchonete onde trabalhava, quase meia-noite, quando quatro sujeitos a atacam. Para o narrador, o mundo todo está errado, falso, podre e, quixotescamente, enfrenta todos para defendê-la. Outro conto-título de livro – “Sexo, Tristeza e Flores” (1973) – vem envolto totalmente em linguagem coloquializada, focalizando uma cena em bar, entre bebedores. A todo momento o narrador pede mais uma cana aos garçons e se dirige ao narratário, como que buscando compreensão e aprovação para seu livro pronto, observando com ironia: “Por que ler? Há a televisão.” Discute os caminhos do escrever, as condições do escritor, com ressaibos de amargura e revolta. Tudo é questionado. Lembra muito o Camus de A Queda. Tal temática enraíza-se em toda a obra do autor.

Outro tema invectivado com muita freqüência na literatura de Emanuel é o das alienações provocadas pela televisão. “Em cada Coração” (1972) expande longo libelo contra esse meio de comunicação, que representa alienação total da família, porque a única realidade passa a ser a da tela, iluminada e brilhante durante 24 horas do dia. Destaque-se o estilo sincopado, de frases curtas, nominais, simulando a rotinização da família de marionetes, para concluir em ambiente quixotesco/grotesco, que não permite diferenciar TV e “realidade”. Também a revolução militar de 1964 é alvo constante do autor. Em “No Planalto Central” (1979), se expõe o Emanuel revoltado, angustiado, encurralado, porque “houve um ano chamado 64” e, combinando duas vertentes fundamentais, estava “cansado de tantas fugas e trepadas frenéticas”. O relato vem denso e concentrado, presentificado, uma vida em um dia.

Entretanto, a paixão folhetinesca, a impositiva atração da mulher, a sexualidade insaciável retornam sem tréguas. “Dia das Mães” (1984) brota de um narrador que deixa a mulher em casa – ela aceitava tudo – e vai visitar a amante, tendo na cabeça a obrigação de redigir pareces para a repartição. Forte clima existencialista envolve tudo em tédio. Já em “Arredores de Chão Batido” (1988), o caixeiro-viajante Ariosto, 50 anos, vende de tudo. Mas, mesmo nos lugarejos de “chão batido”, já chegou a TV e o asfalto leva à cidade, de modo que ele vende cada vez menos e vai sentindo sua solidão: se tivesse uma casa, mulher, filho! Indaga-se: “de que miserável região surge essa necessidade pré-adolescente de ser amado”? Ao ser acolhido pela hospedeira Maria dos Anjos, ela lhe parece pura e angélica. O relato faz transparecer a constante solidão e carência desse homem, não permitindo ao leitor atitude passiva diante de retrato tão vigoroso da inútil fragilidade humana. Seria possível seccionar a literatura de Emanuel da sua vida?

De outra parte, Emanuel M. Vieira revela-se dinâmico, decidido, em ação constante, buscando com entusiasmo uma existência mais plena. “Longa Vida, Capitão” (1989) deixa transparecer, desde o início, um fascínio marcante que exerce a figura do Capitão sobre o narrador, então menino: personalidade anticonvencional, forte, voluntariosa, revolucionária, inquieta e inquietante, sobretudo aventureiro destemido que sabe celebrar a existência: “A vida é uma dádiva!” Centrada totalmente na personagem, a narrativa resulta de fragmentos de comentários. Essa busca por mais densa vivência conduz ao retorno à sua Desterro da juventude. “Amor aos Vinte Anos: Desterro – Anos Cinqüenta” (1994), sempre na primeira pessoa, confessionalidade indefectível do protagonista-narrador, procede a retorno aos anos 50 em Desterro: o Miramar, o cais Frederico Rola, com o adolescente enamorado, na memória de 50 anos depois. Retorna insistente tom de decadência, de melancolia, de nostalgia, o caráter sentimental. Perspectivas e realidades fecham-se em negatividades. E, incontido, insinua-se o leitmotiv do escritor tentando...

Tornar-se escritor, refletir sobre a criação literária, perseguir o áspero ofício e os árduos caminhos da projeção como escritor representam anseios impossíveis de ocultamento na carreira de Emanuel. “Ponto Final” (1989) restaura duas paixões do autor: o fascínio inextinguível pela mulher, em variações incontáveis, e o anseio por tornar-se escritor lido e consagrado. Entretanto, impõem-se sempre as irresoluções, a timidez... e o complexo de culpa. “Mãe na Soleira da Porta” (1992) seria o título do romance nunca terminado, no exercício premente do escrever (leitmotiv sempre inquietante na sua literatura): em torno da irmã Pérola, amor impossível, responsável por manter o narrador-personagem solteiro. Passaram-se os anos, e tudo se impregna do peso da solidão e da decadência: “Não terminei nada!”

A vida avança, fecham-se círculos, distanciam-se os laços familiares sempre fortes, carregam-se as cores do universo. Em “Meus Mortos Caminham Comigo nos Domingos de Verão” (1994), ainda avulta a figura, inegável, do narrador nostálgico: “Sou um velho, não por idade (50 anos) mas por ser o último sobrevivente da minha tribo”. E os mortos retornam para conversar com ele, no casarão vazio da família. Afiguram-se muito bem caracterizados os tipos, “para celebrar essa misteriosa ponte que construímos”. Narrativa mais curta, “Cerrados Amores” (1990) ainda se concentra no narrador(autor?), antevendo que “vou morrer”, sob a carga do peso da vida: “... as pessoas sofreram com a Ditadura, com as separações, com os fracassos sociais”, tornando-se difícil “fazer uma relação”. Pesam a indecisão, o anseio barrado pelo medo, a dúvida, o vazio e paira a necessidade de mulher; mas a velhice vai distanciando cada vez mais a realização. Já “Sem ninguém no Mundo” (1998) delineia a alegoria de uma vida almejada: sempre forte, nas inclinações de sentimento, porém marcada por indefinições e dúvidas, busca sem direcionamento certo, coração mole e sentimental, sempre vulnerável pela mulher.

Um passado de luta nunca se esquece e em “Os Hippies Envelhecidos”, transcorridos muitos anos, reencontram-se amigos que “cresceram na faculdade combatendo a ditadura militar”. Entrementes, os tempos mudaram, os arroubos arrefeceram, não estão mais em tempo de fazer “esbornia”, internamente “exilados”, com a “sabedoria de desencontros”, feitos “pistoleiros do entardecer”. O túnel do tempo tudo vai devorando, e a morte acena...

O estigma do amor, o drama da paixão nunca esgotada, a sede de amar e de ser amado não admitem tréguas para este ficcionista. “Blue Eyes” (1998) se constrói em blocos de monólogo interior, dominado pela nostalgia, fundindo lembranças com o frustrante presente. O narrador, Gabriel, de 60 anos – “um ser no crepúsculo” / “ainda não fui amado” –, tece suas reflexões ao saber da morte de Júlia. Transparece todo um anseio edênico por um universo sem culpa, sem pecado, sem malícia, quase que uma possível (con)vivência angelical, distante desse opaco peso existencial. “Poesia” (1991) registra cena de encontro do velho Jarbas com a moça Júlia (“que poderia ser sua neta”), para projetar tom poético e nostálgico, retomando bastante relato anterior “Blue Eyes”: “o amor não é o contrário da solidão: é a solidão dividida, iluminada pela solidão do outro”. Ocorre uma despedida final, porém o encontro “havia justificado uma vida inteira”. E “Laetícia” (1991) faz vislumbrar um amor a três: o narrador (“memorialista fragmentado, apenas crepuscular”) e Miguel (agora já morto) amavam Laetícia: “começou há 50 anos”. Projeta-se a crescente esfinge do tempo/idade e do anseio: “Fica, instante, fica” ou “Fica, instante; viva sempre”. Ao tempo, eles tinhas 25 anos e ela apenas 20. Há 15 anos o narrador fora avisado da morte dela. Haviam vivido a utopia de um carnaval em Olinda, os três juntos, “sem ciúmes”. Agora, sobrevive apenas ele, “depositário da memória da tribo”. Aflora ainda o sonho de “ter feito o romance de nossas vidas”, pelo que “escrevo como se estivesse enviando uma carta para os dois” e gostaria que ela fosse lida, o que não é possível.

À semelhança de O Estrangeiro, de Camus, o narrador de “Mãe” (1998) tenta manter frieza nessa cena em que a mãe morre, bem velha, e os três filhos “fazem o que é preciso”, após o que o primeiro e o terceiro filhos partem, enquanto o segundo fica para as providências no sobrado da mãe. Em monólogo interiorizado, em cena cinematográfica, passa-se a acompanhar exclusivamente este último. Entre puro registro exterior e lampejos interiores, intenta ele registrar o vazio da situação: está reduzido a “órfão de tudo”, nesse desfazer-se de todo sentido.

Emanuel Medeiros Vieira não vive nem escreve sem paixão. Se a vida é uma dádiva, é não menos um desafio. E como tranqüilizar essa explosividade interior que arrasta e desinquieta? Como equilibrar-se entre os desmandos de uma pretensa revolução, as alienações de uma televisão, as angústias da escritura que nunca se plenifica, o passado com tantas imagens recorrentes e o avançar da idade que sufoca na crescente solidão?

Alguns temas marcam recorrência quase obsessiva nesses contos selecionados: o anseio de “escrever”, de tornar-se “escritor”; o retorno à ilha amada, que permanece à distância; a solidão que se projeta crescentemente; o binômio fascinante mulher e bebida; o fantasma irritante da revolução de 64; também o planalto central, o cerrado. O tom confessional em momento algum é vencido, pois o autor arranca fragmentos de si próprio em cada relato. Muito presente se faz a força dos laços familiares, sobretudo da mãe e do pai. Da profusão de dedicatórias, em cada título de narrativa, parece depreender-se um anseio de renovar laços, de munir-se para as carências sempre impositivas. Enfim, todo o vigor dinâmico de Emanuel Medeiros Vieira está condensado nesses Vinte e Dois Contos Escolhidos.

* Presidente da Academia Catarinense de Letras, Professor da UFSC e conhecido crítico literário catarinense

terça-feira, 24 de março de 2009

Brasília I

Poema de Emanuel Medeiros Vieira

Cidade das mangueiras em flor,
dos fundadores da utopia,
candangos, barro vermelho, florzinhas do cerrado
pássaros, encantos cerrados,
cidade do amolador de facas
ela tem esquinas sim, mas é preciso decifrá-las),
da louvação às primeiras chuvas,
terra molhada em janeiro

Não, meu coração não quer saber da urbe palaciana,
dos maquiáveis planaltinos,
intrigas com soda cáustica.

Cidade dos criadores,
Da mistura de tantas raças, vários brasis
(ah, a moça tomando sorvete no ponto de ônibus).

Cidade do meu viver e do meu sobreviver,
de todos os sonhos,
das linhas retas do arquiteto,
e cidade do meu repouso.

quarta-feira, 18 de março de 2009

Explicação

Emanuel Medeiros Vieira*

Michel Butor dizia que toda explicação é uma forma de destruição.
Mas sinto que preciso oferecer uma.
Depois de quase todos os textos que publico em alguns blogs, criticando o obsceno modelo imposto no Brasil e o capitalismo selvagem (o “selvagem” não seria redundância?), recebo mensagens de pessoas que dizem também condenar o socialismo , as ditaduras comunistas, os regimes que vigoraram no Leste europeu, garantindo que defendem a democracia.

Eu também...
Não devo ter sido claro. Não suportava muros, como o de Berlim.
Para mim, democracia é um valor universal. Ditaduras são incompatíveis com os valores humanistas, quaisquer que sejam suas origens.
Atravessei o Muro de Berlim, conheci a Alemanha Oriental no inverno europeu de 1976.
Era um regime policialesco, incentivador da delação, que favorecia uma minoria privilegiada.
Conheci a Romênia já em 2000, mas ouvi relatos consistentes de pessoas honradas que viveram o stalinismo corrupto que lá vigorou.

Quando condeno um modelo, é claro, não proponho nenhuma ditadura, nenhuma usurpação da dignidade humana.
É que está internalizada nos corações e mentes, uma espécie de visão maniqueísta da história, da vida, dos regimes.
O buraco é mais embaixo.
O que precisamos é defender, com unhas e dentes, a democracia como valor universal.
Não basta que nossas idéias sejam justas e boas.
Precisamos ser justos e bons. Não só em mesa de bar, mas nas andanças da própria vida.
Não quero stalinismo, não quero muros, não quero a perversa desigualdade social.
Gostaria (sei que não verei) de um modelo que fosse calcado no humano.
Fui claro? Então, continuemos a pensar de maneira generosa, ecumênica e plural, sem preconceitos, sem maniqueísmos, e sem os ‘totalitarismos mentais’ que afetam a nossa visão de mundo.

*Escritor catarinense radicado em Brasília.

segunda-feira, 16 de março de 2009

Meditações sobre a atualidade

Emanuel Medeiros Vieira*

O que está havendo?
Uma ditadura, por mais cruel que seja, um dia termina. Manda-nos para a cadeia, para a tortura, para o exílio, mas um dia acaba.
Nos tempos em que vivemos, há uma forma de lavagem cerebral, de domínio do fútil, do mero aparecer em detrimento do ser; hegemonia da massificação, democratismo, não democracia. Perigosa e subliminar: penetra os corações e mentes, incentiva o individualismo mais feroz, nega a solidariedade, humilha os mais frágeis. Invade o inconsciente, anestesia as consciências e deseja criar um rebanho de almas. Como todo rebanho: quieto, conformista, passivo e apático, querendo nos fazer crer que a vida já rabiscou todos os destinos.
Não, não rabiscou.
Onde andam os indisciplinadores de almas, de que falava Fernando Pessoa?
Eu sei, remar contra a maré do egoísmo, da velhacaria institucionalizada, não é fácil. A lavagem subliminar mais cruel é aquela que nos faz abençoar àqueles que edificaram a política da morte e da exclusão.

Mas queria perguntar: onde estão aqueles que defendiam o Estado-Mínimo, que nos chamavam de dinossauros, antiquados? Debochavam de qualquer posição humanista. E agora correm atrás, da maneira mais infame e covarde, ao Estado que tanto condenavam.
No “Muro de Berlim” dos neoliberais, do Consenso de Washington, os zumbis bancários se espalham na sala de estar das finanças mundiais. Os cadáveres do capitalismo, um a um, vão apodrecendo. Alguns dos maiores bancos europeus e americanos estão quebrados. E nós?

O consórcio PMDB-PT repete, como papel carbono, o anterior: aquele (PFL-PSDB) que ajudou a vender o país na bacia das almas.
É o projeto liberal-tucano-petista-oligárquico, da modernização conservadora, que quer se manter no poder até o final dos tempos.
Não se enganem: não há diferença entre eles. Talvez, só na extensão da crueldade de seus modelos contra os mais frágeis, como os aposentados. E bajulando os de sempre: banqueiros, latifundiários, usineiros, os políticos corruptos, e agora os donos da mídia.
Ele une a oligarquia paulista à aristocracia escravocrata nordestina, agora ampliada com ex-sindicalistas traidores (pelegos) – os que vergaram a espinha diante do grande capital.
“Eles” podem ter mudado de opinião, mas não podem obrigar os outros a fazer o mesmo.
Lembro-me de um “aviateur” e “écrivain” français (1900-1944) – creio não precisar dar o nome deste grande humanista: “O que atormenta as sopas populares não remedeiam. O que atormenta não são essas faces escavadas, nem essas feiúras. É Mozart assassinado, um pouco em cada um desses homens”.

*Escritor catarinense residente em Brasília

sexta-feira, 13 de março de 2009

REUNIÃO DA OCDE EM PARIS: a participação brasileira no comitê de tratores

O Centro de Engenharia e Automação do Instituto Agronômico (CEA/IAC), com sede em Jundiaí, São Paulo, participou, no final de fevereiro, da reunião anual da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), formada pelos 30 países mais ricos do mundo, no comitê referente à implantação de ensaios oficiais de tratores agrícolas. A reunião acontece todos os anos em Paris e reúne países membros e não-membros da OCDE. O CEA/IAC, que há três anos vinha sendo convidado, participou como representante do Brasil na condição de membro observador. A delegação brasileira foi constituída pelo Diretor do CEA, Hamilton Humberto Ramos, e pela pesquisadora Ila Maria Corrêa, do Laboratório de Ensaio de Tratores. Na ocasião, o Diretor do CEA/IAC fez uma apresentação sobre a expectativa de ensaios no Brasil, expondo dados da produção agrícola brasileira, da produção de tratores agrícolas e fazendo um histórico da atividade de ensaios no âmbito do Instituto Agronômico.

A delegação brasileira: Hamilton Humberto Ramos e Ila Maria corrêa

O CEA/IAC manifestou interesse em participar da reunião do comitê da OCDE por ser o ensaio de tratores agrícolas uma de suas áreas de atuação, com o objetivo de melhoria da qualidade das máquinas agrícolas. Nos ensaios de tratores são levantadas características de desempenho (potência desenvolvida, consumo de combustível) e de segurança (ruído, estrutura de proteção na capotagem, cinto de segurança).
Desde a década de 60 o CEA é referência neste tipo de ensaios. Atualmente encontra-se em fase de reestruturação de suas instalações, buscando enquadrar-se em padrões internacionais, o que está sendo feito com recursos da FINEP, do governo do Estado de São Paulo e de outras fontes. A intenção é manter a condição de observador junto à OCDE até obter o credenciamento, submetendo-se à avaliação do órgão. Na avaliação será observada a infra-estrutura disponível, a capacitação dos técnicos envolvidos e se os procedimentos de ensaio seguem os preconizados nos Códigos de Ensaios de Tratores.

O plenário do Comitê de Tratores da OCDE

Dispor de um a estação de ensaio credenciada pela OCDE no Brasil é importante também para a indústria de tratores agrícolas com interesse em exportação para o mercado europeu. Para exportar a um país membro da OCDE o fabricante deve atender a regulamentos específicos, entre eles o de apresentar relatório de ensaio. Não havendo estação de ensaio credenciada no país de origem, o fabricante tem de enviar a máquina para ensaio em outro país, o que envolve altíssimo custo. Assim, mais uma vez o CEA dá um importante passo para continuar sendo referência de qualidade da área agrícola.

O desenvolvimento dos trabalhos

A OCDE é uma organização internacional e intergovernamental que agrupa os países mais industrializados da economia do mercado e tem a finalidade de promover políticas para o crescimento econômico e social, para a expansão do emprego, para a melhoria do padrão de vida e a liberação do comércio. A OCDE tem quatro programas de atuação: Código de Tratores, Esquemas de Sementes, Esquemas de Frutas e Legumes e Esquemas de Florestas. Tais códigos e esquemas estabelecem regras e facilitam o comércio entre os países participantes.
No programa Código de Tratores são tratadas questões relativas aos métodos de ensaio, decidindo sobre revisões, alterações, inclusão de novos procedimentos. Os ensaios são conduzidos a pedido dos fabricantes, por uma estação de ensaio reconhecida oficialmente em diversos países. Os resultados fornecem ao usuário informações técnicas de comparação e em alguns países servem para atender à legislação vigente.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

SERES HUMANOS NA CRISE DO CAPITALISMO

Emanuel Medeiros Vieira

(Modesta meditação dedicada em favor do pessimismo da inteligência e do otimismo da vontade.)

André Gide escreveu: “Todas as coisas já estão ditas, mas como ninguém escuta, é preciso recomeçar sempre.”
E o ofício de escrever é um eterno recomeçar: lutar com palavras mal rompe a manhã, para usar a expressão de Drummond.
Creio que travamos, através da linguagem, o que T.S.Eliot chamou de “combate intolerável com as palavras” que “se estiram, racham, escorregam, perecem.”

Mas a batalha da vida não é formal. O que percebemos é a banalização do mal e não do bem. A mercantilização das relações, a hegemonia do ter e do parecer, o estímulo à futilidade e ao egoísmo, geraram um ilhamento entre as pessoas, onde muitos seres parecem apenas fingir e camuflar os seus sentimentos.

O modelo vigente acreditava que éramos meros números. Minha geração não viu crise maior do capitalismo. Crise ou colapso? O “Muro de Berlim” dos neoliberais?
Onde estão aqueles que exigiam Estado mínimo e nos chamavam de dinossauros?
Eles tinham verdades consagradas. Diziam que o capitalismo havia vencido.
Como disse Cesar Benjamin, num artigo intitulado “Karl Marx manda lembranças”, os “Estados tentarão salvar o capitalismo da ação predatória dos capitalistas”.

O que se vê não é erro nem acidente. O projeto todo estava centrado na acumulação do capital.
Tantos anos de falso consenso resultaram neste quadro dantesco.
Benjamin está convicto de que o Brasil pagará alto preço por ter subordinado sua economia ao grande cassino.
Resultado?
Colapso financeiro, desemprego crescente, desigualdade social obscena. E assim por diante.
Os concílios acabaram com o limbo e com o purgatório. Com o inferno não...
Formou-se uma geração de políticos espertos, inebriados pelos marketing, não pela verdade
E a degradação ética, internalizada em muitas almas, parece não ter fim.

Só unidos poderemos recuperar o núcleo do humano.
(Não digo nada de novo. Eu sei. Mas nossa força é essa: nossa união, forjada em tantas lutas.)
Como observou Boris Pasternak, “viver a vida até o fim não é tarefas para crianças.”
Vamos vivê-la?

(Brasília, fevereiro de 2009)

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

EMIGRADOS

Poema de Emanuel Medeiros Vieira

Emigrados,
seremos sempre,
emigrados.

Em busca de outro mar,
da última ilha,
seguindo os pássaros,
atrás do último pássaro.

De um mar a outro,
de uma ilha à outra ilha,
e, então, dormiremos,
uma noite sucedendo-se à outra.